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DPOC. A doença respiratória do século XXI

O acrónimo DPOC diz-nos coisas importantes sobre a doença: D, diz-nos que estamos perante uma doença; P, que o seu órgão de expressão é o pulmão; O, que o processo chave é a obstrução brônquica responsável pelas dificuldades respiratórias sentidas pelo doente; C, diz-nos que a doença é crónica. Porém, para o acrónimo ser completo teria que ter pelo menos mais duas letras: G de grave e I de incapacitante.

Apesar de ser uma doença importante - a 4ª causa de morte a nível mundial - não sabemos com precisão quantos portugueses sofrem de DPOC. Sabemos que, entre nós, é uma doença subdiagnosticada e subtratada e que os estudos epidemiológicos mais credíveis apontam para que afete 14,2% da população com mais de 40 anos, ou seja cerca de 800.000 pessoas.

A sua principal causa é o tabagismo: 90% dos casos acontecem em fumadores. Fumar provoca uma inflamação crónica dos brônquios, que se traduz por tosse e expetoração crónicas, e destruição do tecido pulmonar (enfisema) que origina uma deficiente oxigenação do sangue (hipoxemia crónica), responsável pelo cansaço e dispneia progressiva, para esforços cada vez menores. Nas fases finais o doente acaba por não ter capacidade respiratória para suportar as atividades de vida diárias.

Apesar de ser uma doença respiratória, os seus determinismos fisiopatológicos tornam-na numa doença multissistémica. O sedentarismo forçado (pela incapacidade respiratória) e a hipoxemia crónica estão na base de outros problemas, tais como: obesidade, diabetes, osteoporose, doenças intestinais crónicas, hipertensão arterial e doença cardiovascular. A doença cardiovascular aguda é muitas vezes a causa de morte ? enfarte do miocárdio e acidente cerebrovascular.

Igualmente importante como causa de morte estão as exacerbações, muitas vezes causadas por infeções respiratórias banais, bacterianas e víricas, e que motivam o internamento hospitalar. A mortalidade nestes internamentos atinge os 10%. Sabe-se que os doentes com exacerbações frequentes representam um subgrupo, ou fenótipo, associado a pior prognóstico.

Entre nós a DPOC é a terceira causa de internamento por doença respiratória com 8.190 internamentos em 2015 (Observatório Nacional das Doenças Respiratórias - ONDR). Mas este número é substancialmente maior, porque muitos dos internamentos destes doentes são registados noutras rubricas nosológicas como, "pneumonias" (a 1ª causa de internamento hospitalar) e "insuficiência respiratória" (a 2ª causa).

O mesmo se passa com a mortalidade, pois, para além dos 885 óbitos verificados nesse ano (ONDR), muitos outros óbitos são inseridos nas rúbricas, "neoplasias do pulmão", "pneumonias" e "insuficiência respiratória".

Na abordagem terapêutica da DPOC temos armas cada vez mais eficazes (broncodilatadores e corticoides), que aliviam os sintomas, diminuem as agudizações, atenuam o declínio da função respiratória e reduzem a mortalidade, porém, incapazes de parar a evolução da doença nos doentes que continuam a fumar. Assim, nestes doentes, a interrupção tabágica é o elemento chave. A vacinação antigripal e antipneumocócica contribui para evitar muitas exacerbações.

Nos doentes hipoxémicos crónicos a administração de oxigénio (domiciliário e de deambulação) é mandatória, como forma de se interromper as respetivas consequências cardiovasculares e sistémicas e permitir ao doente ter uma melhor qualidade de vida. Nestes doentes as viagens de avião exigem oxigenoterapia.

Elemento fundamental na terapêutica da DPOC é a reabilitação respiratória, com as suas técnicas de ensino da respiração, drenagem brônquica, tonificação muscular e treino do exercício. A reabilitação respiratória é, no presente, um sério problema, pois menos de 1% dos doentes necessitados desta abordagem terapêutica a ela têm acesso.

Por fim uma palavra, talvez a mais importante, e que se prende com o diagnóstico precoce. Este pode ser feito através de um teste simples, a espirometria, que mede a intensidade da obstrução das vias aéreas e a capacidade respiratória. Este exame deve ser realizado de forma sistemática em fumadores, ex-fumadores e pessoas sintomáticas. Portugal tem uma incipiente Rede Nacional de Espirometria que urge alargar a todo o território nacional.

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