Tuberculose Multirresistente

Por João Costeira

  • O que é a Tuberculose Multirresistente (TBMR)?

    A Tuberculose Multirresistente é uma Tuberculose resistente a pelo menos dois medicamentos anti-tuberculosos que são nucleares no seu tratamento - a Isoniazida e a Rifampicina.

    Algumas formas de TBMR são também resistentes a outros medicamentos anti-tuberculosos. Quando essas resistências incluem pelo menos um dos fármacos de cada um de dois grupos de medicamentos também importantes no tratamento da tuberculose - as Fluoroquinolonas (Ofloxacina, Levofloxacina, Moxifloxacina) e os antibacilares injectáveis (Amicacina, Canamicina, Capreomicina) - então essa Tuberculose designa-se de Tuberculose Extensivamente Resistente (TBXDR).

  • Como é que a Tuberculose se torna resistente?

    A Tuberculose é uma doença causada pelo bacilo de Koch (Mycobacterium tuberculosis). Alguns bacilos sofrem naturalmente mutações espontâneas e podem adquirir resistências à acção dos medicamentos. Quando o tratamento é cumprido sem falhas estes bacilos são eliminados. No entanto, se o tratamento não for o correcto então estes bacilos ficam dominantes e a Tuberculose torna-se resistente.

  • Como se contrai a TBMR?

    Há duas vias para contrair a TBMR.

    A primeira é quando no decurso de uma Tuberculose comum os erros no tratamento levam a que os bacilos causadores da doença se tornem resistentes.

    A insuficiência na quantidade de fármacos recomendados, o incumprimento das doses indicadas, falhas na regularidade das tomas dos medicamentos, o abandono antes de tempo do tratamento por parte do doente ou má prescrição terapêutica são os factores principais que podem levar à TBMR.

    Raramente a existência de doenças associadas à Tuberculose, no mesmo doente, podem levar a uma diminuição da eficácia dos medicamentos e contribuir também para o desenvolvimento de resistências.

    A outra via para contrair a TBMR é quando a fonte de contágio é um doente com uma Tuberculose Multirresistente, portanto o bacilo que vai causar a doença a outros indivíduos já é resistente aos medicamentos.

  • Como se pode prevenir a TBMR?

    A melhor forma de prevenir a TBMR é o correcto cumprimento do tratamento da Tuberculose comum. A medida fundamental para alcançar este objectivo é a Toma Observada Directamente (TOD).

    A TOD consiste na administração dos medicamentos na presença de técnicos de saúde (enfermeiros, médicos). Além de assegurar o cumprimento do tratamento a presença assídua dos técnicos de saúde pode melhorar o acompanhamento da evolução da doença assim como detectar e resolver, mais rapidamente, ocorrências adversas que possam surgir.

    Para prevenir a disseminação de TBMR é, também, essencial o isolamento dos doentes, com esta forma de Tuberculose, em condições adequadas, enquanto se mantêm contagiosos.

  • Pode-se contrair TBMR tendo já tido Tuberculose?

    Sim, pode-se voltar a ter Tuberculose após o tratamento de uma Tuberculose prévia, fundamentalmente, por duas razões.

    A primeira razão é por que o tratamento não foi totalmente eficaz. Isto deve-se, principalmente, ao incumprimento do tratamento adequado e o tratamento incorrecto é o principal factor de risco para contrair a TBMR.

    A outra razão é a possibilidade de adquirir uma Tuberculose de uma nova fonte de contágio. Se essa fonte de contágio tiver uma TBMR então a transmissão será essa forma de Tuberculose.

  • O tratamento da TBMR é igual ao tratamento da Tuberculose comum?

    Não.

    No tratamento da TBMR são utilizados medicamentos menos eficazes, por este motivo o tempo de tratamento é mais prolongado, enquanto para a Tuberculose comum a duração do tratamento é, em média, 6 meses para a TBMR é, pelo menos, 18 meses.

    O tempo habitual até o doente ficar não contagioso é, também, mais dilatado obrigando ao isolamento do doente durante esse período.

    Devido à menor eficácia, utilizam-se mais fármacos em associação durante todo o tempo de tratamento sendo mais frequente o aparecimento de reacções indesejáveis aos medicamentos. Por estas condicionantes e devido ao preço dos medicamentos de recurso o custo do tratamento da TBMR é muito superior ao da Tuberculose comum.

  • A Tuberculose Multirresistente tem cura?

    O tratamento adequado, respeitando estritamente as recomendações em vigor segundo os conhecimentos actuais, pode levar à cura. No entanto, como os medicamentos de recurso existentes são menos eficazes, o sucesso do tratamento é muito inferior e a mortalidade muito superior à Tuberculose comum.

    A possibilidade de cura está também dependente da extensão das resistências.

    Algumas TBMR são resistentes a todos, ou a quase todos, os fármacos configurando, assim, formas de Tuberculose praticamente incuráveis.

  • Há muitos doentes com TBMR em Portugal?

    Os últimos dados conhecidos sobre a situação epidemiológica da TBMR em Portugal reportam-se a Dezembro de 2009.

    Esses dados indicam a existência de 65 casos de TBMR dos quais 30 apresentam características de TBXDR. Comparando com os dados do ano de 2008 registou-se uma diminuição da TBMR em 13,2 %, mas na forma TBXDR houve um aumento de 27 para 30 casos.

    Estes doentes concentram-se na sua maioria nas regiões de Lisboa e Vale do Tejo e Norte do País.

    Anualmente cerca de 2% dos casos de Tuberculose diagnosticados em Portugal são TBMR. É uma proporção idêntica à média dos países da União Europeia e bem longe dos valores conhecidos em países da Europa de Leste e Sudoeste Asiático onde a TBMR representam mais de 10% dos casos de Tuberculose.

    Apesar da considerável melhoria do controlo da TBMR em Portugal em relação a anos transactos esta forma de Tuberculose e principalmente a TBXDR continua a ser uma ameaça séria nomeadamente na região metropolitana de Lisboa.

  • Como se sabe que a Tuberculose é MR?

    Podemos suspeitar que uma Tuberculose é multirresistente quando no decurso do tratamento a Tuberculose continua activa não se constatando melhoria dos sintomas ou quando após uma evolução favorável acontece agravamento da doença ou, ainda, quando estamos perante um doente que já teve Tuberculose no passado. Habitualmente estes casos estão associados a uma má adesão do doente ao tratamento.

    É igualmente provável que uma TB seja MR quando o doente em causa teve como contacto um outro doente já com uma TBMR conhecida.

    No entanto só é possível ter a certeza que a TB é MR com a utilização de testes específicos.

    Existem dois tipos principais de testes laboratoriais de resistência do bacilo da Tuberculose.

    O teste mais clássico, que continua a ser o principal, avalia a resposta dos bacilos quando exposto aos medicamentos anti-tuberculosos. Neste caso se os bacilos não morrerem consideram-se resistentes aos medicamentos a que tiveram expostos.

    O outro teste desenvolvido mais recentemente, com um tempo de execução consideravelmente mais rápido, baseia-se na análise molecular do ADN do bacilo e tem como objectivo detectar os genes do bacilo responsáveis pelas resistências aos vários medicamentos usados no tratamento da TB.

  • A TBMR pode deixar sequelas nos pulmões?

    A Tuberculose é uma doença que atinge, preferencialmente, os pulmões e pode provocar extensas lesões destrutivas desse órgão.

    No passado, quando não existia tratamento capaz, os doentes que sobreviviam, frequentemente, ficavam com sequelas, muitas vezes, incapacitantes.

    Com a introdução de medicamentos eficazes a cura da doença limitou fortemente o desenvolvimento de sequelas na Tuberculose pulmonar. Contudo por razões várias relacionadas com a extensão da doença ou com uma evolução desfavorável do tratamento, alguns doentes podem contrair lesões crónicas.

    Os doentes com TBMR estão condicionados a tratamentos menos eficazes e mais prolongados o que pode configurar um risco para o aparecimento de sequelas após a fase activa da doença.

  • Pode-se contrair TBMR estando vacinado com a BCG?

    A vacina BCG confere apenas uma protecção parcial contra a Tuberculose.

    O benefício da vacinação restringe-se às formas graves da doença nas crianças.

    Nas restantes apresentações da doença, nomeadamente na Tuberculose pulmonar esta vacina não tem qualquer repercussão relevante.

    Também em relação à TBMR esta vacina não é um factor importante na prevenção da doença sendo, portanto, possível contrair esta forma de TB estando vacinado com a BCG.

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