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Vacinação de adultos

O conceito de vacinação esteve, durante muitos anos, associado à idade pediátrica. A vacinação de adultos nasce da necessidade de proteger o viajante contra doenças infeciosas endémicas em muitas regiões do planeta (por exemplo: hepatites A e B, febre amarela, febre tifoide, cólera e encefalite japonesa) e contra outras doenças infeciosas preveníveis, casos da gripe e das infeções por pneumococos, sobretudo a doença pneumocócica invasiva e a pneumonia.

A gripe é uma velha companheira de espécie humana. Para além das quatro pandemias que se registaram no último século, a atividade gripal que se verifica todos os anos é origem de significativa morbilidade e mortalidade. A vacinação antigripal tem um duplo objetivo: por um lado, conferir proteção ao maior número possível de pessoas, com uma particular relevância para aquelas que são mais suscetíveis e nas quais as temíveis complicações da gripe são expectáveis; por outro lado, pretende-se, com a vacinação, interromper a cadeia de transmissão do vírus.

Estes conceitos são bem percetíveis nos grupos prioritários para a vacinação, com um particular realce para aqueles a quem a Direção Geral da Saúde (DGS) fornece a vacina gratuitamente. Esses grupos são os seguintes: pessoas com idade igual ou superior a 65 anos; residentes ou internados em instituições; pessoas sofrendo de diabetes mellitus; em terapêutica de substituição renal crónica, com trissomia 21, a aguardar ou submetidas a transplante de células percursoras hematopoiéticas ou de órgãos sólidos e profissionais do SNS incluindo os bombeiros com atividade assistencial.

Esta gratuitidade abrange igualmente pessoas sob quimioterapia, doentes com fibrose quística, doentes sofrendo de défice de alfal-antitripsina sob terapêutica de substituição, doentes com patologia do interstício do pulmão sob terapêutica e pessoas com doença crónica com comprometimento da função respiratória, da eliminação de secreções, ou com risco aumentado de aspiração de secreções.

Quanto às pneumonias, no nosso país elas representam um importante problema de saúde pública, com mais de 110 internamentos hospitalares diários e um óbito em cada 93 minutos (5623 óbitos em 2017). Praticamente todas os trabalhos de investigação apontam para o predomínio etiológico do Streptococcus pneumoniae, quer nas pneumonias tratadas em ambulatório, quer naquelas que, pela sua gravidade, tiveram que ser tratadas em ambiente hospitalar. Daí que prevenir as infeções provocadas por este microrganismo seja, em termos de saúde pública, uma prioridade.

A vacinação de adultos nasce da necessidade de proteger o viajante contra doenças infeciosas endémicas em muitas regiões do planeta e contra outras doenças infeciosas preveníveis, casos da gripe e das infeções por pneumococos.


A DGS, através da sua norma 11/2015, fornece orientações específicas sobre vacinação antipneumocócica em adultos, documento de onde sobressaem as seguintes palavras- -chave, que enquadram na perfeição a problemática: Streptococcus pneumoniae, vacinação, infeção pneumocócica, doença invasiva pneumocócica e grupos de risco. Relativamente a estes últimos definem-se dois grandes grupos de pessoas que devem ser vacinados: pessoas imunocompetentes sofrendo de doenças cónicas e doentes imunocomprometidos. Relativamente aos primeiros, a norma indica-nos os seguintes grupos a vacinar: pessoas com doença cardíaca crónica (insuficiência cardíaca crónica, doença cardíaca isquémica, hipertensão arterial pulmonar e cardiomiopatias), doença hepática crónica, insuficiência renal crónica, doença respiratória crónica (insuficiência respiratória crónica, DPOC, enfisema, asma, bronquiectasias, doenças do interstício pulmonar, fibrose quística, pneumoconioses e doenças neuromusculares), pessoas que vão realizar transplantação de órgãos, dadores de medula óssea (antes da doação), pessoas com fístulas de líquido cefalorraquidiano, candidatos e portadores de implantes coleares, e doentes com diabetes mellitus requerendo tratamento. Relativamente aos segundos, a vacina antipneumocócica deve ser dada a todos aqueles que sofrem de défices da imunidade, tais como: ausência ou disfunção do baço, imunodeficiências primárias, infeção pelo VIH, recetor de transplante, doença oncológica ativa, trissomia 21, síndroma nefrótico, ou todos aqueles que estão a fazer tratamentos com fármacos que diminuem a imunidade (cortisona, quimioterapia, radioterapia ou fármacos biológicos).

As pneumonias, no nosso país, representam um importante problema de saúde pública.

A vacina deve, igualmente, ser administrada às pessoas que se encontram nos extremos etários da vida, idades em que o sistema imunitário ou ainda está imaturo (crianças) ou já está debilitado (idosos). Relativamente aos primeiros, em Portugal, a vacina antipneumocócica integra o Plano Nacional de Vacinação, sendo administrada em três doses, a todas as crianças, no primeiro ano de vida. Relativamente aos idosos, mesmo que em plena saúde, devem ser vacinados a partir dos 60- 65 anos (há países, como a Grécia, Áustria e EUA, onde as autoridades de saúde aconselham a vacinação a partir dos 50 anos).

Após o sucesso da vacinação de crianças, a vacinação de adultos perfila-se como uma nova era que está a chegar. Como prevê William Schafner, presidente da National Foundation for Infectious Diseases (EUA): "Where we are with adult immunization is where we were 25 years ago with children immunization. It is like a drip coming out of the faucet. For children it's turned on full force".

Artigo por Jaime Pina em Anuário Farmacêutico
Fundação Portuguesa do Pulmão



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