O coronavírus

Coronavirus e o CovidCoronavírus, cujo nome provém do facto de possuir uma estrutura em formato de coroa, é uma família de vírus que causa infecções respiratórias.
A maioria das pessoas é infetada com os coronavírus mais comuns ao longo da vida, sendo uma causa comum de infeções respiratórias brandas a moderadas de curta duração. Entre os coronavírus encontra-se o vírus causador da forma de pneumonia atípica grave conhecida por SARS e o vírus causador da Covid-19, responsável pela pandemia de Covid-19 em 2019 e 2020.

  • O que é um vírus?

    Um vírus é uma ínfima partícula de material orgânico rodeado por uma fina membrana de lípidos e proteínas com material genético no seu interior, RNA, DNA ou ambos, como no caso do citomegolovírus. São tão pequenos que nem ao microscópio ótico são visíveis.  Apenas podem ser visualizados através de um microscópio eletrónico. São, seguramente, das mais antigas partículas com potencialidade de vida no planeta.

    Foi um botânico holandês, Martinus Beijerinck quem primeiro suspeitou da sua existência, neste caso como indutores de doença nas folhas da planta do tabaco.

    Discute-se se são ou não seres vivos - há quem os classifique como "quase vida ou quase não vida" - e isto porque não têm todas as características definidoras dos seres vivos. Não têm metabolismo, não respiram, não se movimentam, nem conseguem por si só, fazer cópias de si mesmos.

    De facto, qualquer vírus para permanecer vivo e multiplicar-se, precisa de ajuda, neste caso uma célula. São parasitas obrigatórios das células de outros seres vivos, retirando destas os constituintes de que necessitam e obrigando-as colaborar na sua reprodução. As células parasitadas não só fornecem a energia necessária para o vírus permanecer vivo, como são induzidas a fabricarem o material genético do próprio vírus, ou seja os vírus põem as células a fazerem cópias de si mesmos, muitas cópias. Fora de uma célula não sobrevivem: duram apenas horas ou no pior dos cenários muito poucos dias.

    Os vírus são responsáveis pelas mais temíveis doenças da humanidade. Epidemias ou pandemias virais marcaram a História da humanidade: varíola, poliomielite, sarampo e gripe, por exemplo. Caíram impérios e desapareceram civilizações por causa destes invisíveis microrganismos, como aconteceu com os Incas e os Aztecas, povos que pereceram na sequência dos seus primeiros contactos com o vírus da varíola, trazido para a América pelos conquistadores espanhóis. Esses povos nunca tinham tido qualquer contacto com a doença, não tendo, pois, qualquer tipo de imunidade.

    Presentemente estamos a viver mais um surto pandémico provocado por um novo vírus, um coronavírus, o SARS-CoV-2.

  • Quais os coronavírus patogénicos para os humanos?

    Os Coronavírus foram pela primeira vez isolados na década de sessenta do passado século. Para além de estirpes que infetam animais - os alfacoronavirus, responsáveis por gastrenterites em cães e peritonite infeciosa em felídeos - estão identificadas sete estirpes com capacidade de infetar os seres humanos, quatro delas responsáveis pelos chamados resfriados comuns - constipações - e as outras três responsáveis por três das atuais doenças mais mortíferas para a humanidade, entre as quais está a presente Covid-19.

    O primeiro, o SARS-CoV, apareceu em 2002 tendo dado origem ao surto epidémico da SARS - Síndroma Respiratória Aguda Severa - que durou oito meses, atingiu 8.098 pessoas em 26 países e originou a morte a 774 - mortalidade de cerca de 10%. Este vírus teve a sua origem nos morcegos e foi transmitido ao Homem, ou por estes animais ou através de um reservatório intermediário, que se suspeita terem sido as civetas, um animal selvagem da família dos felídeos, que entretanto passou a integrar os hábitos gastronómicos gourmet dos chineses.

    O segundo, o MERS-CoV, entrou em cena na Jordânia e na Arábia Saudita em 2012 tendo dado origem à Síndroma Respiratória do Médio Oriente. A pneumonia associada a esta síndroma é mortal em mais de 30% dos casos. Para além dos casos verificados no Médio Oriente, já foram contabilizados casos noutros países, como a França, Alemanha, Itália, Reino Unido e EUA. Na Coreia do Sul verificou-se um surto que atingiu 180 pessoas das quais 36 faleceram. Até ao momento foram contabilizados 2.494 casos a que corresponderam 858 óbitos. Acredita-se que o MERS-CoV tem a sua origem em morcegos e que seja transmitido ao Homem a partir de camelos portadores do vírus.

    Por fim a Covid-19. No último dia de 2019 o mundo teve conhecimento através de um alerta da OMS que as autoridades chinesas estavam a reportar um estranho surto de uma grave pneumonia na cidade de Wuham, a quadragésima segunda maior cidade do mundo, com 12 milhões de habitantes.

    Estávamos no início de um novo sobressalto de saúde pública, a Covid-19, provocado por uma nova estirpe de coronavírus, batizado de SARS-CoV-2 pelo Grupo de  Estudos dos Coronavírus, do Comité Internacional de Taxonomia dos Vírus.

    Não sabíamos então que estava a nascer a segunda pandemia do século XXI, infelizmente bem mais grave que a primeira, ocorrida em 2009 e provocada por um novo vírus da gripe, o Infuenza AH1N1.

    A 30 de janeiro de 2020 a OMS declarava, pela sexta vez na sua história, o Estado de Emergência de Saúde Pública Internacional. Mais tarde - muito tarde, apenas em 11 de março - foi declarado o estado de situação pandémica.

    Este vírus, que tal como o seu irmão, o SARS-CoV provém dos morcegos terá sido transmitido aos humanos através de um hospedeiro secundário, que se suspeita possa ter sido o pangolim chinês.

    A evolução da pandemia, todos a conhecemos. Quando este texto está a ser escrito, três meses após o seu início, a situação melhorou na Ásia, caminha para o seu pico na Europa e inicia a sua fase ascendente nos EUA. Dentro de pouco tempo, chegará a África e aí as estimativas apontam para um cenário negro, cenário que vai resultar do equilíbrio entre duas componentes de sinal contrário: as medidas que os países africanos poderão implementar fruto da experiência dos países que os antecederam na pandemia e as suas frágeis estruturas sanitárias. Porém, predominam as expectativas pessimistas.

  • Como é que os coronavírus infetam as células

    Um coronavírus é uma ínfima partícula cerca de um milhão de vezes menor que a célula que infeta. É constituído por material orgânico rodeado por uma fina membrana lipídica, uma cadeia de ARN no seu interior (que detém a informação genética) e proteínas na sua superfície. É uma destas proteínas que se comporta como a "chave" que tem a capacidade de entrar na "fechadura" da célula (que neste caso é uma enzima, a ECA2), permitindo que vírus funda a sua membrana com a da célula, entre nela, introduza o seu RNA e leve a célula a fazer cópias, muitas cópias, de si mesmo (entre 100 a 1.000).

    Após esta replicação viral, cada uma das novas partículas virais vai infetar novas células e o processo continua vezes sem conta, podendo levar à morte do ser vivo infetado.

    Este vírus infeta com muita eficiência o aparelho respiratório, porque as respetivas células têm muitos recetores ACE2, sobretudo ao nível das suas células epiteliais, com particularidade para aquelas que revestem os alvéolos pulmonares. Daí haver uma relação muito estreita deste vírus com as pneumonias.

  • Como se manifesta a infeção pelo coronavírus

    Agora que atingimos o milhão de casos em infetados, temos suficiente experiência para estratificarmos a resposta clínica à infeção por este vírus em quatro categorias.

    1. Casos assintomáticos, ou seja aquelas pessoas que apesar de estarem infetadas não apresentam quaisquer sintomas. Estes doentes representam um problema, já que podem disseminar o vírus na comunidade sem o saberem. É precisamente por causa deste grupo de infetados e transmissores da infeção que alguns países aconselham a utilização da máscara facial por todas as pessoas.

    2. Pessoas que apenas apresentam queixas do trato respiratório superior, como se estivessem apenas constipadas. Pode haver alguma febre e muitas vezes congestão nasal, irritação da garganta e perda de olfato e de paladar.

    3. Pessoas com síndrome tipo gripal, com febre alta, fadiga, dores no corpo, dores de cabeça, tosse seca, sintomas muitas vezes associadas aos sintomas do grupo anterior. São estes doentes que recorrem aos serviços de saúde, ficando alguns deles internados, sobretudo quando coexistem comorbilidades, como por exemplo, diabetes, doenças crónicas ou défices de imunidade.

    Pessoas com o quadro anterior e com pneumonia, clinicamente expressa sobretudo pela pelas dificuldades respiratórias. São estes doentes que têm que ser tratados em ambiente hospitalar, muitas vezes em Cuidados Intensivos e com ventilação assistida. Esta pneumonia não é tratável com os antibióticos convencionais e origina muitas vezes a incapacidade do pulmão conseguir oxigenar o sangue - determina aquilo que os médicos chama de insuficiência respiratória.

  • Superfícies: porquê e como as desinfetar

    Uma das questões para que a pandemia Covid-19 (Coronavírus disease-19), nos tem sensibilizado é um aspecto comportamental, a limpeza e desinfecção das mãos e de superfícies com que contactamos no nosso quotidiano. De facto, as superfícies com maior risco são as que são tocadas ou manuseadas por muitas pessoas e com muita frequência, nomeadamente, telemóveis, comandos de televisão e ar condicionado, teclados de computadores e tablets, mesas, bancadas, cadeiras, interruptores de luz, maçanetas de portas, torneiras de lavatórios, manípulos de autoclismos, corrimãos, botões de elevadores, caixas de multibanco e dinheiro, notas e moedas, entre outros.

    Tendo em atenção que o novo Sars-CoV-2 (Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavírus-2) levanta muitas dúvidas pois não existe ainda conhecimento sobre o seu comportamento, estão a realizar-se diferentes estudos de meta análise, tendo como base, investigações (22) realizadas em laboratório com ambiente controlado, relativas a outros coronavírus humanos e veterinários, pois acredita-se na possibilidade de alguma semelhança genética.

    Desta forma, sabe-se que poderá sobreviver em diferentes superfícies inanimadas, podendo o material porque são constituídas e a temperatura, apresentarem-se como elementos importantes para a determinação do tempo de vida deste tipo de coronavírus, que pode ir de horas a dias.

    Tendo como base, os estudos acima referidos, podemos afirmar que a uma temperatura média de 21ºC, é expectável que estes coronavírus possam permanecer infecciosos no:

     1.  Aço: até 2 horas
     2.  Alumínio: até 8 horas
     3.  Papelão: até 24 horas
     4.  Madeira: até 4 dias
     5.  Livros: até 5 dias
     6.  PVC/Cerâmica/Azulejos: até 5 dias
     7.  Plástico/Metal/Vidro: até 5 dias

    De uma forma geral, a uma temperatura igual ou superior a 30ºC, a duração da persistência destes vírus é mais curta.

    Assim e em conclusão, estas superfícies inanimadas podem servir de depósitos a este e a outros vírus ou microorganismos, sendo certo, que se forem devidamente limpas e desinfectadas com frequência, se conseguem reduzir estes períodos.

    Como desinfectar estas superfícies é a questão seguinte.

    Quando se fala, espirra ou tosse há gotículas respiratórias que se libertam e se depositam nas superfícies. Por isso, estas devem ser limpas e desinfectadas com a maior frequência possível.

    Nunca se esqueça, que antes de se iniciar este processo, deve lavar-se as mãos, colocar as luvas e, desde que possível, vestir-se roupa protectora.

    Como anteriormente se referiu, partindo do princípio da similitude comportamental dos coronavírus, a técnica de limpeza e desinfecção das superfícies deve ser sempre húmida, com panos de limpeza, preferencialmente, de uso único e descartáveis, primeiro com água e detergente, e depois com produtos à base de hipoclorito de sódio (lixívia) ou etanol a 70% (álcool), e desta forma, tentar reduzir-se a infecciosidade do coronavírus. Por outro lado, também existe a possibilidade de utilização de produtos bactericidas e virucidas feitos à base de álcool, tipo toalhetes, que actuam rapidamente na limpeza e desinfecção de superfícies sensíveis aos mesmos.

    A Direcção Geral da Saúde ensina um "truque" de como fazer a mistura:

    Para quatro litros de água, juntar cinco colheres de sopa de lixívia - e depois deixar actuar durante dez minutos, enxaguar com água quente e deixar secar.

    Ao terminar, deve retirar as luvas e lavar novamente as mãos.

  • Quarentena. O Isolamento dos doentes

    A quarentena, muito utilizada na Idade Media, na ausência de armas terapêuticas eficazes, era então a única medida que se podia tomar. Foi utilizada no passado em surtos das chamadas doenças quarentenárias: peste, cólera e tifo, entre outras. Mais recentemente, em 2003, aquando do surto epidémico do SARS, tornou-se evidente que a quarentena foi a medida mais eficaz na contenção da infeção e foi essa lição que trespassou para a atual pandemia de Coronavírus, explicando a eficácia dos países asiáticos no respetivo combate - foram eles que adquiriram experiência no combate ao SARS.

    Mas se nos países asiáticos, fruto da experiência adquirida a imposição de quarentenas foi uma medida imediata (China, Taiwan, Singapura, Macau, por exemplo) noutros países a sua implementação falhou ou foi tardia e os resultados foram catastróficos. Foi o caso da Itália, da Espanha ou do Irão.

    No início da pandemia Portugal poderia ter sido mais pró-ativo. Deveria ter imposto o isolamento social a todos aqueles que vinham de países já muito atingidos. Não o fez e os primeiros casos e respetivas cadeias de transmissão verificaram-se a partir de pessoas oriundas da Itália e de Espanha. Se o nosso país tivesse sido mais exigente tínhamos atrasado a evolução do surto, com resultados positivos.

    O Isolamento, primeiro de pessoas, depois de regiões e depois de países, vai permanecer com uma imagem de marca desta pandemia- os dois países mais populosos do planeta, a China e a Índia fizeram-no. A pandemia do SARS-CoV-2 está a dar origem às maiores quarentenas da história da humanidade.

  • Quando é que um doente adulto com COVID necessita ser internado?

    De acordo com a Norma 004/2020 da Direção Geral de Saúde, terá de apresentar, pelo menos, um destes critérios:

    1.  Ausência de condições de habitabilidade ou de exequibilidade do isolamento, no domicílio. Aí deverá ter:
      a. Telefone/Telemóvel facilmente acessível;
      b. Termómetro;
      c. Quarto separado ou cama individual; caso não seja possível o doente usa máscara cirúrgica;
      d. Acesso a casa de banho, preferencialmente individual;
      e. Água e sabão para higiene das mãos e produtos de limpeza doméstica;
      f. Cuidador, de acordo com a avaliação clínica;
      g. Não residir com pessoas imunossuprimidas ou grávidas.

    2.  Presença de comorbilidades (DPOC, Asma, Insuficiência Cardíaca, Diabetes, Doença Hepática Crónica, Doença Renal Crónica, Neoplasia Maligna Ativa, Imunossupressão);

    3.  Febre alta (Temperatura ≥ 38.0ºC) persistente com mais de 48-72h ou reaparecimento de febre após apirexia;

    4.  Alteração do estado de consciência;

    5.  Instabilidade hemodinâmica;

    6.  Dispneia em repouso ou para pequenos esforços;

    7.  Frequência respiratória ≥ 30cpm;

    8.  Saturação periférica de O2 ≤ 94% (em ar ambiente), na ausência de outra causa;

    9.  Hemoptises;

    10.  Vómitos persistentes ou diarreia grave;

    11.  Pneumonia com documentação radiológica ou suspeita clínica de pneumonia (enquanto aguarda realização de radiografia de tórax);

    12.  Leucopenia, Linfopenia, ou Trombocitopenia, na ausência de outra causa.

  • Quando é que um doente adulto com COVID necessita de cuidados intensivos?

    De acordo com a Norma 004/2020 da Direção Geral de Saúde, terá de apresentar, pelo menos, um critério major ou três ou mais critérios minor.

    Critérios major:

    1. Choque séptico com necessidade de vasopressores
    2. Insuficiência Respiratória com necessidade de ventilação mecânica invasiva


    Critérios minor

    1. Frequência respiratória > 30 cpm;
    2. PaO2/FiO2 < 250;
    3. Pneumonia com envolvimento multilobar;
    4. Alteração do estado de consciência;
    5. Ureia > 42mg/dl;
    6. Leucopenia (< 4000/mm3), na ausência de outra causa;
    7. Trombocitopenia (< 100000/mm3), na ausência de outra causa;
    8. Hipotermia (< 36ºC);
    9. Hipotensão com necessidade de fluidoterapia intensiva

  • Tratamento da doença COVID-19

    A actual pandemia resulta da disseminação mundial pelo novo coronavírus SARS-Cov2 que causa a doença designada COVID-19.

    O grande problema que enfrentamos é consequência da inexistência de imunidade específica para o vírus na nossa população, assim como, da ausência de uma vacina específica para este vírus.

    O melhor tratamento para esta doença será a sua prevenção através de uma vacina, que ainda não está disponível, e que permitirá a imunidade e defesa contra a transmissão viral por indivíduos doentes.

    Neste momento, e na ausência desta vacina, a principal medida que pode reduzir o contágio pelo vírus é o isolamento em casa, com o agregado familiar reduzido ao mínimo, separado e sem contactos com os outros familiares, nomeadamente os avós que são mais susceptíveis.

    Quando as saídas de casa são necessárias (compra de alimentos ou medicamentos), sempre reduzidas ao mínimo possível, deverá adoptar-se o distanciamento social (separação entre pessoas de mais de 2 metros), o uso de máscara cirúrgica ou alternativa em tecido que cubra a boca e nariz, medida que reduz a transmissão e a inalação de gotículas e aerossóis contaminados. Após este contacto deve efectuar-se a lavagem de mãos. Esta lavagem deve ser frequente e sempre que se manipulem bens adquiridos no exterior.

    Estas duas medidas, isolamento em casa e distanciamento social, são as únicas que podem evitar ou reduzir o contágio pelo vírus.

    A taxa média de transmissão por cada doente infectado pelo vírus tem sido em Portugal entre 1,5 a 2 pessoas contagiadas, que é um valor superior ao que acontece com a gripe. Só quando esta taxa se reduzir para um valor inferior a 1 é que poderemos dizer que a situação está controlada, embora não resolvida.

    A outra grande medida que pode reduzir o impacto e gravidade da doença reside na estabilidade e manutenção do tratamento regular para doenças crónicas, sejam respiratórias como a Asma e DPOC, seja a hipertensão, diabetes ou doença cardíaca. Se estas doenças não estiverem controladas o risco de gravidade e mortalidade é muito elevado. Não podemos esquecer que a exposição ao tabaco (fumadores activos) é também factor de risco de gravidade.

    Os sintomas principais desta infecção são febre alta, tosse frequente e com pouca expectoração, mau estar geral e dores musculares, em tudo similares às vulgares constipações e estados gripais consequentes a outros vírus respiratórios. Os doentes com doença respiratória crónica devem estar alerta para a modificação das características dos seus sintomas habituais, tosse e expectoração e falta de ar.

    A presença de sensação de falta de ar ou dificuldade em respirar pode também surgir e é sinal de gravidade da doença.

    Os principais sintomas referidos têm sido os mais frequentes em Portugal e em cerca de 85% a 90% dos nossos doentes a gravidade da doença é ligeira, pelo que o tratamento é apenas sintomático.

    Nestes casos, o tratamento passa pelo isolamento obrigatório em casa e medicamentos de alívio sintomático que usamos para outros estados gripais, como analgésicos e antipiréticos (paracetamol), descongestionantes nasais (anti-histamínicos). A utilização de anti-inflamatórios como o ibuprofeno tem sido questionada, pelo que só deve ser utlizada sob indicação médica. Nos casos de sobreinfecção bacteriana estará indicada antibioterapia, sempre sob orientação médica.

    Nos casos mais graves, em menos de 10% das situações, com dificuldade respiratória ou evolução acelerada e grave dos sintomas e febre muito alta, está recomendado o internamento. A manutenção de níveis de oxigenação é primordial assim como a estabilização de doença crónica pré-existente.

    Quando o quadro clínico for muito grave e em que se coloque a necessidade de ventilação mecânica invasiva, o doente será tratado em Cuidados intensivos. Esta situação tem acontecido em cerca de 20% dos doentes internados, e é nestas situações que se verifica uma alta taxa de mortalidade nomeadamente em doentes com mais de 70 anos.

    Como referido não existe ainda uma intervenção que previna a infecção, isto é, ainda não dispomos da tão necessária vacina.

    Uma vez instalada a infecção, esta deve ser confirmada pelo teste de zaragatoa que detecta a multiplicação viral no organismo. O teste rápido serológico, que detecta a existência de anticorpos contra o vírus, não substitui o teste que detecta o vírus.

    Não existe também nenhum tratamento antiviral específico para este vírus.

    Até ao momento todos os estudos realizados com outros fármacos já utilizados para outros vírus não foram conclusivos da sua eficácia nesta doença (associação de lopinavir/ritonavir ou remdesivir).

    Outros fármacos que poderão ter um efeito de redução da ligação do vírus às células receptoras do organismo também ainda não mostraram eficácia (antimaláricos como a hidroxicloroquina, antiparasitários como a ivermectina, interferon beta).

    Outras medidas que potencialmente podem aumentar as defessas imunológicas também ainda não demonstraram eficácia comprovada (vacina BCG, administração de soro de doentes convalescentes).

    Como conclusão, só a existência de uma vacina e de um tratamento antiviral específico permitirá encarar esta doença de outra forma.

    Até lá, as medidas de isolamento e distanciamento social são as únicas que permitem reduzir o número total de casos, e consequentemente o número de casos graves e fatais.

  • Vacina para a COVID-19

    A epidemia atual será contida por imunização de grande parte da população, conseguida por infeção ou por vacinação. A vacina está assim a ser intensamente procurada. Nessa altura a doença poderá desaparecer como aconteceu com o SARS, a outra epidemia por Coronavírus de 2003, ou ficar endémica com surtos esporádicos ou regulares como aconteceu com a gripe A em 2009.

    Desde início houve dúvidas sobre a viabilidade da vacina porque a experiência de infeções respiratórias com as 4 estirpes de coronavírus endémicas não produzem imunidade significativa e porque houve casos isolados de 2ª infeção na Coreia e na China. Contudo, desde que há testes para o despiste anticorpos específicos, tem-se visto o aparecimento e aumento da quantidade destes anticorpos como em qualquer outra infeção por vírus.

    Na comunicação social passa a ideia de que a vacina está para aparecer a qualquer momento. Na realidade o seu eventual aparecimento nas quantidades necessárias é muito mais remoto, seguramente para depois desta onda epidémica, na melhor das hipóteses para o próximo inverno. Se assim for será muito bem-vinda.  Não se pode transpor o que acontece com as epidemias de novas estirpes de gripe. Na gripe as novas vacinas podem ser conseguidas em poucos meses porque os meios de cultura de vírus estão montados, os estudos fundamentais para a segurança estão feitos e há muito conhecimento sobre a biologia dos vírus gripais há muito tempo. No caso do COVID-19 todo este trabalho tem de ser feito para poder haver vacina em quantidade suficiente e com critérios para ser aprovada pelas agências internacionais dos medicamentos.

    Entretanto é preciso continuar os esforços de mitigação da epidemia de modo a que o número de doentes graves se mantenha dentro dos limites da capacidade do sistema de saúde.

  • Inteligência artificial

    O contributo da inteligência artificial, mais visível nos países tecnologicamente mais evoluídos, como por exemplo Taiwan: aeroportos com monitores de temperatura (qualquer pessoa com febre é imediatamente sinalizado e isolada), cruzamento de dados de viagem dos passageiros na avaliação da estimativa de risco, monitorização por geolocalização de todos os doentes postos em quarentena, etc.

  • A importância de diagnosticar precocemente

    Relativamente às políticas de diagnóstico houve países que se colocaram na linha da frente, outros que foram a reboque e outros que praticamente nada fizeram. Relativamente aos primeiros, de novo Taiwan deu o exemplo: generalizou os testes diagnósticos a todos os casos suspeitos e de forma gratuita. O resultado foi que, apesar dos intensos contactos que este país tem com a China (850.000 taiwaneses vivem na China, 400.000 trabalham e o país recebe anualmente a visita de 2,5 milhões de visitantes chineses) o número de pessoas infectadas pelo coronavírus foi invulgarmente baixo, face às estimativas.

    Numa infeção pandémica com as características da atual - grande capacidade de transmissão a toda a comunidade - o diagnóstico precoce juntamente com a imposição de quarentena a todos os casos comprovados ou suspeitos e o isolamento social de todos os cidadãos é uma das armas mais eficazes. Agora, em muitos países a ordem é: testar, testar, testar. Fica a lição para as autoridades de saúde relativamente a futuros surtos.

    Portugal, só tardiamente generalizou o teste diagnóstico a todas as pessoas com a possibilidade de estarem doentes, tal como aconteceu no concelho de Ovar, todo ele em quarentena sanitária assegurada por forças policiais. Também, por inicialmente ter considerado o método pouco eficaz, implementou tardiamente nos aeroportos o rastreio automático da febre realizado através de sensores infravermelhos fixos. Não discutindo a sua baixa eficácia (basta o passageiro tomar um antipirético para que não seja detetado), em minha opinião basta a deteção de apenas um doente para justificar a adoção da técnica. É que essa pessoa pode ser a origem de uma cadeia de transmissão que vai provocar a doença em centenas de outras.

    Com estas duas decisões tardias o nosso país perdeu tempo e ganhou mais casos de infeção.

  • Cultura

    Muitas doenças deixaram traços importantes na produção cultural e artística. E não tenhamos dúvidas que assim será com esta pandemia.

    Paradigma dessa influência foram a tuberculose e a SIDA. Ambas as infeções influenciaram movimentos culturais e artísticos. Música, pintura e literatura foram as formas de expressão artística que mais exprimiram essas influências, através de personalidades como Chopin, Thomas Mann ou Pablo Picasso. O Romantismo - movimento artístico, político e filosófico, que surgiu nos finais do século XVIII - apoderou-se ou foi apoderado pela tuberculose.

    Porém, sobretudo na literatura, outras epidemias deram origem a obras primas, como o Decameron, de Giovano Boccaccio (peste negra, na Europa do século XIV) ou a Morte em Veneza de Thomas Mann, romance em que a ação decorre em Veneza, no início do século XX, durante uma epidemia de cólera. Ambas as obras foram transpostas para o cinema. Também, relativamente à sétima arte referência para o filme "Quarentena" filme de qualidade muito duvidosa (péssimo em minha opinião) dirigido em 2008 por Jonh Erick Dowdle.

    Ainda agora a pandemia está na sua fase inicial e já se ouvem canções a ela dedicadas, por vezes veiculando mensagens de saúde pública, com aconteceu coma canção "Hoje eu não saio não" de Marisa Monte, ou com Manuel Alegre e o seu poema "Lisboa ainda" alusivo ao momento:

    Lisboa não tem beijos nem abraços

    não tem risos nem esplanadas

    não tem passos

    nem raparigas nem rapazes de mãos dadas

    tem praças cheias de ninguém

    ainda tem sol mas não tem

    nem gaivota de Amália nem canoa

    Sem restaurantes sem bares nem cinemas

    ainda é fado ainda é poemas

    fechada dentro de si mesma ainda é Lisboa

    cidade aberta

    ainda é Lisboa de Pessoa alegre e triste

    e em cada rua deserta

    ainda resiste

    Autor: Manuel Alegre

  • Os impactos no planeta

    Esta pandemia apanhou-nos em plena ameaça global, consubstanciada nas alterações climáticas em curso. Estas constituem-se como as mais evidentes repercussões das atividades da Humanidade sobre o planeta, desencadeadoras de uma nova era geológica, o Antropoceno.

    Fruto da inexistência de armas específicas de combate a este vírus, e tendo como arma mais eficaz a quarentena e o isolamento social, o planeta parou muita da sua atividade. A atividade industrial e o tráfego rodoviário caíram abruptamente, sobretudo nos países mais poluidores, a China e os EUA.

    A consequência foi uma diminuição dos níveis de concentração dos principais poluentes na atmosfera. Por exemplo, satélites da ESA e da NASA detetaram importantes reduções da concentração de óxidos de azoto na atmosfera sobre a China, sendo estes gases os principais marcadores da poluição gerada pelo tráfego rodoviário. Desta vez, e ao contrário do habitual, os povos asiáticos usaram proteção respiratória, não para se protegerem dos malefícios da poluição - que mata lentamente - mas de um microrganismo com uma capacidade letal muito mais rápida.

    Afastámo-nos da natureza e estamos há duzentos anos a tratar muito mal o planeta. É evidente que a razão é trágica, mas o planeta agradece este momento de pausa na contaminação da sua atmosfera.

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