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Todo o mundo é composto de mudança


O que é que uma frase de um poema de Camões tem a ver com um artigo sobre saúde? Muito, como iremos ver adiante.

O Homo Sapiens deambula pelo planeta desde há uns 300.000 anos e durante este longo período sofreu e morreu de doenças variadas, nem sempre as mesmas. Quando vivia da caça e da recoleção de alimentos os traumatismos eram uma causa frequente de morte. Encontramos em ossos fossilizados dessa altura, evidentes sinais de fraturas ósseas que, em muitos casos, terão sido causadoras da morte.

Mas, desde sempre, foram as doenças infecciosas as companheiras omnipresentes da humanidade. A tuberculose, a lepra, a cólera, o tifo, a febre-amarela, a malária, e tantas outras, marcaram o rumo da história de muitos povos.

A mais antiga doença que deixou as suas marcas para a posteridade foi a tuberculose. Encontramos os seus vestígios em todas as eras, desde o neolítico até à atualidade, passando pelas culturas grega, romana e, sobretudo, pelas que tinham como hábito a mumificação dos cadáveres, como aconteceu com os egípcios, os incas e os aztecas. Atualmente, apesar de termos tratamento para a tuberculose, ela continua a matar mais de um milhão de pessoas anualmente.

Porém, houve momentos de particular significado, em que os surtos de doença se revelaram como verdadeiros reguladores demográficos. Foi o que aconteceu na Europa, no século XIV, quando uma epidemia de peste negra foi responsável por mais de 50 milhões de mortes, um terço da população europeia de então. O aumento da densidade populacional, a generalizada falta de higiene, a elevada densidade populacional dos núcleos urbanos e o comércio estiveram na base da propagação da doença, realizada a partir das pulgas dos ratos. Após este primeiro surto epidémico, que aconteceu entre 1346 e 1353, a peste permaneceu endémica na Europa durante mais de 300 anos.

Cinco séculos volvidos, em 1918, estávamos em plena 1ª Guerra Mundial, uma pandemia gripal, que passou para a posteridade com o nome de Gripe Espanhola ou Pneumónica, em três ondas pandémicas deu a volta ao mundo, infetou mais de 500 milhões de pessoas e foi responsável por 50 a 100 milhões de mortos. Praticamente todos os países foram afetados - apenas Santa Helena, no Atlântico Sul e algumas ilhas do pacífico sul foram poupadas - e a guerra teve que terminar mais cedo, pois os beligerantes viram-se confrontados com falta de soldados para lutar e morrer nas trincheiras. Em apenas dois anos viveu-se a pior pandemia da História da humanidade.

A luta conta as doenças infecciosas tem uma data e um nome: a primeira foi o ano de 1928; o nome, o de Alexandre Fleming, o cientista escocês que descobriu a penicilina, o primeiro antibiótico. Esta descoberta abriu as portas à descoberta de dezenas de outros que permitiram curar a maioria das doenças infecciosas. O otimismo foi tanto que muita gente com responsabilidade vaticinou o fim dessas doenças. Porém, até agora, a humanidade apenas conseguiu uma vitória: a extinção da varíola realizada através de uma formidável campanha de vacinação realizada a nível planetário. O último caso de varíola registado aconteceu no já longínquo ano de 1977.

Contudo, a natureza tem os seus caprichos e em plena época dos antibióticos foram surgindo novos agentes infecciosos para os quais a medicina não encontrou ainda respostas totalmente adequadas: o vírus VIH/SIDA; os vírus das febres hemorrágicas, como o Ébola, o mais conhecido, causadores de uma mortalidade superior a 60%; o vírus Zika responsável por malformações em fetos; a emergência de bactérias resistentes a praticamente a todos os antibióticos - as chamadas superbactérias - originando infeções com elevadíssima mortalidade, significando, muitas vezes, o regresso à era pré-antibiótica, devido à ausência de antibióticos disponíveis para as tratar.

Atualmente estamos a assistir a uma nova mudança do padrão de doenças. A Organização Mundial da Saúde prevê que no presente século novas doenças tenham cada vez maior peso, e algumas delas começam já a evidenciar-se. O cancro, a obesidade, os acidentes e a depressão serão as doenças do futuro.

Se tivermos em atenção a atual lista de mortalidade da União Europeia vemos o início desta realidade: o cancro do aparelho respiratório, o cancro digestivo e os acidentes ocupam respetivamente o 3ª, o 5º e o 6º lugar na lista de letalidade dos europeus.

Quanto à obesidade, considerada já a nova pandemia das sociedades modernas, de acordo com a rede internacional NCD RisK Factor Collboration, os 124 milhões de crianças e adolescentes e os 670 milhões de adultos obesos dizem-nos que, atualmente, há mais pessoas obesas do que subnutridas. Se nos lembrarmos que a obesidade está associada a doenças perigosas como o cancro, a hipertensão arterial e a diabete apercebemo-nos da verdadeira dimensão do problema.

Camões tinha razão: "Todo o mundo é composto de mudança". Temos que saber trocar-lhe "as voltas porque o dia é uma criança".

Texto por Dr. Jaime Pina
Fundação Portuguesa do Pulmão



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