A luta permanente entre os humanos e os microrganismos.

A propósito das incursões dos coronavírus


A nossa relação com os microrganismos é ambivalente. Por um lado, precisamos deles para assegurar muitas das funções do nosso organismo e, nesse sentido, vivemos em simbiose com milhares de milhões de bactérias que habitam o interior do nosso corpo, sobretudo no intestino Por outro lado, podemos perecer ante uma pequeníssima e invisível partícula que é um vírus.

Os microrganismos têm sido a causa das doenças mais temíveis que a Humanidade tem enfrentado: peste, tuberculose, febre tifoide, malária, SIDA, pneumonias e gripes. Muitas delas têm-se revelado como verdadeiros modeladores demográficos.

Foi o que aconteceu na Europa, no século XIV, com a peste negra, doença causada por uma bactéria mais tarde batizada por Yersiniapestis, proveniente das áreas orientais da atual Rússia, que no seu percurso para ocidente foi sofrendo mutações que a foram tornando progressivamente mais letal e transmitida aos humanos através das pulgas dos ratos e outros roedores. Resultado: 450 milhões de mortos, 70 a 200 milhões dos quais na Eurásia e pelo menos um terço da população da Europa de então - 50 milhões de pessoas. Foi preciso esperar três séculos para que a população mundial recuperasse e cinco para que a peste perdesse importância.

Mas se há microrganismos que perderam virulência outros mantêm-se ativos há muitos milhares de anos. É o que acontece com o bacilo da tuberculose, denominado Mycobacteriumtuberculosis, mas conhecido como Bacilo de KocK, em homenagem ao investigador alemão que pela primeira vez o identificou. A tuberculose nos dias de hoje continua a ser responsável, todos os anos, pela morte de mais de 1,5 milhões de pessoas, sobretudo nos países menos desenvolvidos.

Mas os microrganismos têm sabido surpreender-nos, não só porque aprendem a resistir aos sucessivos antibióticos que vamos descobrindo para os eliminar, como pelo aparecimento regular de novos agentes capazes de provocar novas doenças. E nos últimos quarenta anos tivemos algumas surpresas desagradáveis.

A doença do Legionário

A primeira aconteceu em 1976, na cidade americana de Filadélfia, quando 221 participantes numa reunião de veteranos de guerra - a Legião Americana - adoeceram com uma forma grave de pneumonia, que acabou por causar a morte a 34- letalidade de 15%. O agente causador desta nova doença, descobriu-se mais tarde, era uma bactéria até então desconhecida que foi batizada com o nome de Legionella em homenagem ao evento e aos seus promotores. A doença por ela provocada passou a ser conhecida como a "Doença do Legionário". Estudos posteriores vieram mostrar que este novo microrganismo era transmitido através dos sistemas de climatização, quando não devidamente cuidados.

Portugal ficou indelevelmente relacionado com esta doença quando em 2014, no concelho de Vila Franca de Xira, se verificou o terceiro maior surto jamais registado desta doença. Foram infetadas 375 pessoas das quais onze faleceram. Mais tarde veio a identificar-se a origem do surto: as torres de refrigeração de uma empresa de adubos.

Apesar dos conhecimentos adquiridos acerca deste novo microrganismo e de termos meios eficazes para o combater a Legionella continua a ser acusa de significativa mortalidade, um pouco por todo o mundo, quer em casos individuais, quer no âmbito de pequenos surtos.

O vírus Ébola

No mesmo ano em que a bactéria Legionella fez a sua apresentação, na República Democrática do Congo, junto ao rio Ébola, verificou-se um estranho e grave surto de uma doença em que uma invulgar percentagem de pessoas afetadas morreu com hemorragias generalizadas. Foi identificado como agente responsável um microrganismo até então desconhecido, um vírus logo batizado de vírus Ébola, representante de uma nova família de vírus, responsáveis pelas chamadas febres hemorrágicas, que integram o lote das doenças mais mortíferas para a espécie humana - entre 25 a 90% de mortalidade. Mais tarde descobriu-se que o reservatório natural era os morcegos e que a doença se transmitia através do contacto direto com os fluidos de pessoas infetadas vivas ou já falecidas: sangue, vómitos, urina, fezes, saliva ou sémen.

Cinquenta e quatro anos passados, e após vários surtos, todos ocorridos em África, continuamos sem ter uma vacina ou um tratamento comprovadamente eficaz. No surto de 2014, o mais grave até ao momento, e que atingiu vários países da África ocidental, a OMS temendo que as frágeis estruturas sanitárias dos países envolvidos fossem incapazes de conter o surto epidémico, declarou a epidemia uma Emergência de Saúde Pública Internacional, instando  ao apoio internacional.

O vírus da Imunodeficiência Humana

Cinco anos mais tarde, em 1981, nos EUA, uma nova e estanha doença é descoberta, assim como o seu agente: um novo vírus denominado VIH, o vírus da imunodeficiência humana, identificado por Luc Montagnier e Robert Gallo apenas dois anos depois. A Humanidade assistiu, então, ao aparecimento da SIDA. Se no início parecia ser uma doença de alguns grupos particulares (homossexuais, haitianos, heroinómanos e hemofílicos), cedo se percebeu que era uma doença generalizada a todos os grupos epidemiológicos. A SIDA é uma epidemia global espalhada pelos cinco continentes, que já infetou mais de 70 milhões de pessoas das quais 35 milhões faleceram. Atualmente, cerca de 37 milhões de pessoas estão infetadas pelo VIH dos quais 22 milhões estão em tratamento.

Trinta e nove após o seu aparecimento o vírus VIH/SIDA tem frustrado todas as tentativas para se encontrar uma vacina e, apesar de se terem descoberto muitos fármacos que atrasam o desenvolvimento natural da doença, tornando-a crónica, a sua cura é ainda uma miragem.

Tal como aconteceu com a tuberculose no século XIX, a SIDA teve uma importante influência nas artes, sobretudo na música, na literatura e no cinema. Outro laço que as uniu foi o de terem sido a causa da morte prematura de muitos vultos ligados à produção artística: George Orwell, Chopin, Kafka e Anton Tchecov, por exemplo, falecidos com tuberculose, ou Fred Mercury, António Variações, Anthony Perkins e Isaac Asimov, entre tantos outros falecidos devido à infeção pelo VIH.

O vírus Influenza H5N1

Em 1997, em Hong-Kong, foi detetado um surto de gripe aviária provocada por um novo vírus Influenza, o H5N1 e transmitido às aves de capoeira pelas aves selvagens. Desde logo se apercebeu da potencialidade deste vírus poder transmitir-se aos seres humanas e provocar a primeira pandemia gripal do século XXI.

A medida adotada foi a do abate de todas as aves de capoeira da região atingida - 1.500.000 aves - tendo-se procedido de igual modo sempre que, nos anos seguintes, foram identificados, nas aves, novos surtos provocados pelo mesmo vírus. Estão, presentemente, contabilizadas mais de cem milhões de aves domésticas eliminadas mas, acredita-se que tal medida contribuiu para que, até ao momento, se tenha evitado a sua transmissão generalizada aos humanos.

Mas, apesar desta aparente vitória, e de o vírus H5N1 não ter adquirido a fácil capacidade de transposição para a espécie humana, ele já conseguiu infetar cerca de 500 pessoas em 15 países de três continentes (Ásia, África e Europa) tendo provocado a morte de cerca de 300, o que corresponde a uma mortalidade de 60%, taxa elevadíssima e que coloca este vírus como particularmente letal para a nossa espécie. Foi por este motivo que se gerou tanta preocupação relativamente ao vírus H5N1 e que motivou a elaboração de cenários e planos de contingência por parte de muitos países.

Até Abril de 2009 a Organização Mundial de Saúde admitia como muito provável que a próxima pandemia gripal fosse provocada por este vírus, que o seu ponto de partida fosse a China e que, caso acontecesse, atingisse no mínimo um quarto da população do planeta - 1.500.000.000 de pessoas. Felizmente, como sabemos, esta previsão não se comprovou, como adiante veremos. Pelo menos por enquanto.

Outras variedades de vírus Influenza (H5N8, e H7N9) têm estado na origem de surtos de gripe aviária em vários países. Felizmente em nenhum destes casos houve transposição da infeção para os humanos.

Em fevereiro de 2010, na China, na província de Hunan, em plena epidemia pelo coronavírus e próximo do seu epicentro, foi detetado mais um surto de gripe aviária provocado pelo vírus influenza H5N1. Todas as galinhas que sobreviveram ao surto foram abatidas e não se registou nenhum caso de transmissão aos humanos. Porém, este acontecimento significa que estes vírus andam por aí em circulação, por enquanto apenas nas aves.

As quatro pandemias gripais no último século ou as visitas regulares dos vírus Influenza

No último século aconteceram quatro pandemias gripais, com diferentes consequências, todas elas originadas por mutações nos vírus Influenza em circulação.

A primeira, chamada de Gripe Espanhola ou Pneumónica, ocorreu nos anos de 1918-1919 e foi provocada por um novo vírus H1N1 proveniente das aves. Foi considerada a pandemia mais devastadora na história da Humanidade, tendo, em três ondas pandémicas, provocado a morte de 50 a 100 milhões de pessoas - 5% da população mundial de então. O impacto desta pandemia foi de tal forma importante que contribuiu decisivamente para a 1ª Guerra Mundial terminasse.

Entre nós, o número de falecidos situou-se entre os 60.000 e os 150.000 tendo preferencialmente atingido, tal como no resto do mundo, os adultos jovens, admissivelmente porque os mais idosos possuíam alguma imunidade residual, fruto de infeções gripais anteriores. Os videntes de Fátima, Jacinta e Francisco Marto, os pintores Amadeo de Sousa-Cardozo e Gustav Klimt, o poeta francês Guillaume Apollinaire, o filósofo alemão Max Weber ou o médico William Osler, uma das mais notáveis figuras da medicina, encontraram-se entre as vítimas.

A segunda pandemia ocorreu trinta e nove anos depois, em 1957, e foi originada por um novo vírus influenza, o H2N2 que se manteve infetante para o Homem nos dez anos seguintes. Foi chamada Gripe Asiática porque se iniciou na província de Yunan, na China. Foi uma pandemia menos duradoura e menos mortífera, tendo provocado a morte a dois milhões de pessoas.

A terceira pandemia ocorreu entre 1968 e 1969 e foi causada por um novo vírus aviário, o H3N2. Foi a mais benigna das três pandemias - um milhão de mortos - e passou para a História da Medicina com o nome de Gripe Hong-Kong, por ter sido nesta região que se registou o seu início.

Em vez das galinhas veio dos porcos - o Vírus Influenza AH1N1

Ora aconteceu que em Abril de 2009 surgiu, no México, um surto epidémico de gripe em humanos, provocado por um novo vírus influenza, AH1N1, contendo genes de vírus infetantes do Homem (H1N1), das aves (H1N1) e do porco (H1N1 e H3N2).

Este vírus rapidamente espalhou-se por 212 países dos cinco continentes, entrando, pois, em fase pandémica. Foi a primeira pandemia gripal do século XXI e a Organização Mundial da Saúde declarou-a em 25 de Abril de 2009 como uma "emergência de saúde pública internacional". O surto pandémico foi dado como extinto dezasseis meses depois, tendo deixado no seu rasto 201.220 óbitos.

Apesar de, atualmente, termos condições sociodemográficas favorecedoras da transmissão dos vírus respiratórios: vivemos em grandes aglomerados populacionais (mais de metade da população do planeta vive em cidades) e viajamos facilmente por todo o planeta (os vírus respiratórios viajam de avião e não necessitam de passaporte) a excelente resposta da saúde pública fez com este surto pandémico de gripe fosse bem mais benigno que os anteriores.

De facto, nunca enfrentámos uma pandemia gripal tão bem preparados como desta vez. Temos sistemas de vigilância implementados em muitos países; nos últimos cinco anos elaborámos planos de contingência para esta eventualidade; pela primeira vez na História somos capazes de, em poucas horas, confirmar o diagnóstico da doença; possuímos medicamentos específicos capazes de minimizar os efeitos da infeção; somos capazes de produzir uma vacina protetora em poucos meses, e nunca como agora temos capacidade de tratar um importante número de doentes muito graves.

Mas outras duas diferenças se destacam. A primeira diz respeito aos sistemas de informação de que agora dispomos e que nos indicam diariamente a situação da gripe em qualquer parte do mundo. A segunda diferença está numa comunicação social altamente interventiva e que se poderá perfilar como uma preciosa auxiliar das autoridades da Saúde, ao transmitir informações e diretivas que poderão ser de grande utilidade em caso de pandemia. A próxima pandemia gripal vai estar diariamente nos telejornais.

As incursões dos coronavírus

Mas antes do aparecimento deste novo vírus gripal, em finais de 2002, na China, na província de Guandong, surgiu um novo vírus causador da primeira epidemia do século XXI, a SARS - acrónimo da expressão inglesa Severe Acute Respiratory Syndrom (em português "Síndroma Respiratório Agudo Grave") Este vírus, responsável por infeções pulmonares muito graves - pneumonias virais - causou um enorme alarme em todo o mundo, tendo-se espalhado rapidamente por 26 países e afetado 8.098 pessoas, das quais 774 morreram, o que correspondeu a uma elevada letalidade de 10%. Um grande número de países, entre os quais Portugal, elaborou planos de contingência, e esta primeira epidemia da era da globalização teve a capacidade de provocar uma queda generalizada nas bolsas de valores e uma diminuição significativa das viagens aéreas mundiais.

Descobriu-se que o vírus era um coronavírus - coronavírus SARS-CoV - transmitido aos humanos por animais - gatos almiscarados ou civetas - infetados a partir de morcegos, animais considerados o reservatório natural.

 A epidemia durou oito meses e, assim com apareceu, desapareceu, provavelmente devido à eficácia das medidas de contingência aplicadas. Porém, da epidemia do SARS a comunidade científica soube tirar lições muito importantes para o futuro, tais como: a importância da liderança da Organização Mundial da Saúde, a indispensabilidade da cooperação internacional, a necessidade de alocação de meios materiais e humanos no combate às epidemias e, sobretudo, a quarentena dos doentes.

Em 2012, na Jordânia e na Arábia Saudita registaram-se uma série de casos clínicos em tudo semelhante ao SARS mas com maior gravidade. A doença passou a chamar-se Síndrome Respiratória do Médio Oriente (MERS da denominação inglesa) e caracteriza-se por uma infeção respiratória associada muitas vezes a pneumonia que é mortal em mais de 30% dos casos.

Rapidamente se isolou o agente responsável, de novo um coronavírus, desta vez batizado de coronavírus MERS-CoV.

A infeção é transmitida ao Homem a partir dos camelos, porém, continua a não saber-se com precisão quais os reservatórios naturais do vírus - os camelos? os morcegos?

Como estes vírus têm a capacidade de se propagar de pessoa a pessoa já se registaram surtos de MERS noutros países, como o Egipto, Omã e Qatar. Também se registaram casos em países fora do Médio Oriente, incluindo França, Alemanha, Itália, Tunísia, Reino Unido, EUA e Coreia do Sul, em pessoas que haviam viajado ou trabalhado no Médio Oriente. Neste último país o surto atingiu 180 pessoas, das quais 36 faleceram.

Uma preocupação particular com o MERS prende-se com as peregrinações de milhões de fiéis muçulmanos a Meca, na Arábia Saudita, país onde se regista o maior número de casos da doença.

Quando este texto está a ser escrito o coronavírus está de novo a provocar um sobressalto a nível mundial. De facto, após ter surgido um novo surto epidémico, em tudo idêntico ao do SARS, desta vez iniciado na província vizinha de Hubei, num mercado de animais vivos na cidade de Wuhan, e após ter-se espalhado por 24 países, infetado mais de 20.000 pessoas e provocado mais de 426 mortos (apenas 1 fora da China, nas Filipinas) a Organização Mundial da Saúde decretou o Estado de Emergência da Saúde Pública Internacional.

Relativamente ao SARS, aparentemente este coronavírus parece ter uma transmissão pessoa a pessoa mais fácil (presentemente a OMS considera que cada infetado é capaz de transmitir a infeção a 1,4-2,5 pessoas) mas, por outro lado mostra ser menos letal: por enquanto a sua taxa de mortalidade é de cerca de 2%; se por ser menos agressivo ou se por termos maior capacidade de tratar estes casos graves, é uma questão que se calhar nunca irá ser esclarecida.

Outra diferença com a epidemia de SARS foi a atitude da China: enquanto no surto do SARS a China ocultou durante muito tempo o problema e não colaborou com as autoridades de saúde internacionais, desta vez a sua atitude foi de total colaboração, como por exemplo, a de ceder às autoridades internacionais o genoma do vírus, entretanto descodificado.

Em pleno surto epidémico, em que os números aumentam todos os dias, as lições retiradas do surto anterior estão a ser postas no terreno: cooperação internacional e quarentena, esta aplicada ao maior número de pessoas possível, tal como se fazia na Idade Média. Relativamente à cooperação internacional a China, numa prática muito pouco comum, até solicitou ajuda internacional para a cedência de máscaras, já que a capacidade produtora do país se mostra insuficiente para as necessidades.

Quanto à ciência, procura afincadamente um fármaco antivírico capaz de combater a infeção e uma vacina capaz de impedir surtos futuros.

Como disse Joshua Lederberg, Prémio Nobel da Medicina em 1958, "A humanidade e os microrganismos patogénicos têm, desde sempre, mantido uma permanente competição: umas vezes ganhamos, noutras perdemos".

Apesar desta frase ter mais de meio século, o futuro continuou a dar razão a Lederberg: nestas epidemias de que vos falei, muitos milhares de pessoas foram vencidas pelos mais pequenos seres que povoam o nosso planeta - as bactérias e os vírus. Ficamos à espera dos próximos capítulos.


Artigo por Dr. Jaime Pina
Fundação Portuguesa do Pulmão



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