Chefe de Serviço de Pneumologia

Presidente da Assembleia-Geral da Sociedade Portuguesa de Pneumologia

Vice-Presidente da Fundação Portuguesa do Pulmão


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As perguntas mais frequentes


1. O que são as infecções respiratórias?

Falamos de infecções respiratórias quando uma parte do aparelho respiratório é infectada por microrganismos: vírus, bactérias, fungos e parasitas. A expressão dessa infecção depende da área do aparelho respiratório atingida.

2. Quais são as partes do aparelho respiratório que podem ser sede de infecções?

Todas as partes do aparelho respiratório podem ser sede de infecção que adquirem nomes individualizados: nariz (rinite); seios perinasais (sinusite); faringe (faringite); laringe (laringite); brônquios (bronquite, bronquiectasias); pulmão (pneumonias) e pleura (pleurite).

3. As infecções respiratórias são doenças importantes?

As infecções respiratórias estão entre as doenças mais prevalentes e mortíferas para a espécie humana. Actualmente, as pneumonias ocupam o terceiro lugar no ranking da mortalidade humana, a DPOC situa-se em 4.º lugar (mas há a previsão de que ascenderá ao 3.º lugar dentro de 10 anos) e a tuberculose ocupa o 7.º lugar.

4. Quais as infecções respiratórias mais importantes?

A importância das infecções respiratórias pode ser medida pela sua frequência, impacto socio-sanitário ou pela sua gravidade. Nessa perspectiva quatro tipos de infecção lideram em termos de importância: pneumonias, agudizações infecciosas da DPOC, tuberculose e gripe.

5. Em Portugal as infecções respiratórias são doenças frequentes?

No nosso país as infecções respiratórias, com excepção da Tuberculose, não são doenças de declaração obrigatória, pelo que não há registos precisos sobre a sua incidência. Mas sabe-se que são das doenças mais prevalentes.

Segundo o Observatório Nacional das Doenças Respiratórias registam-se, anualmente, mais de 800.000 casos de infecções respiratórias, 150.000 das quais são pneumonias (2008). Nesse ano, registaram-se no nosso país mais de 50.000 internamentos por pneumonia tendo falecido mais de 4.000 pessoas por esta doença (3.ª causa de mortalidade em Portugal).

Nesse ano foram internados 9.301 doentes com o diagnóstico principal de DPOC, doença que representou a 2.ª causa de internamento por doença respiratória.

6. Como se contraem as infecções respiratórias?

O aparelho respiratório, como está em contacto com o meio exterior, está amplamente exposto a agentes infecciosos. Estes atingem o aparelho respiratório usando três vias: via inalatória na qual os microrganismos atingem o aparelho respiratório transportados através dos milhares de litros de ar que diariamente respiramos; via circulatória em que os microrganismos causadores da infecção atingem o pulmão através da circulação; aspiração de material infectado proveniente da cavidade bocal e/ou das vias aéreas superiores.

7. Há populações mais susceptíveis?

Sim. Todas as pessoas que têm a sua imunidade deprimida são mais susceptíveis de sofrerem de infecções respiratórias.

As crianças, por ainda não terem o seu sistema imunitário desenvolvido têm uma sensibilidade maior relativamente a determinados microrganismos, sobretudo vírus.

Os idosos, em virtude da depressão de sistema imunitário que se verifica nos anos finais da vida têm, igualmente, maior tendência a sofrerem de infecções respiratórias.

Todas as pessoas com doenças que deprimam o conjunto de células e mecanismos responsáveis pela imunidade - as chamadas imunodeficiências - ou seja a capacidade natural que todos o organismos têm de lutar contra as agressões e, em particular contra as infecções. E são muitas as situações em que tal acontece, sendo a infecção pelo VIH/SIDA a mais paradigmática.

8. É possível prevenir as infecções respiratórias?

O aparelho respiratório possui importantes mecanismos de defesa contra as infecções. Mas, por variadíssimas razões, esses mecanismos podem ser insuficientes para cumprir a sua missão. E os motivos podem estar quer nos agentes agressores, em virtude da sua quantidade e virulência, quer no hospedeiro. É precisamente neste último contexto que se justifica a intervenção no sentido de se reforçarem as defesas.

9. Com se pode reforçar as defesas de um indivíduo?

Em primeiro lugar adoptando modelos de vida saudáveis. Ter uma deficiente ou inadequada alimentação, ser sedentário, fumar, abusar do álcool ou de outras drogas, ou não respeitar os períodos de repouso enfraquece o nosso sistema imunitário.

Sabe-se que o fumo do tabaco tem como efeito diminuir a actividade de células que têm como missão destruir bactérias que penetram no aparelho respiratório.

Uma boa imunidade requer, também, uma boa alimentação (evitar comidas muito calóricas ricas em gorduras saturadas, açúcar, sal e excesso de álcool), actividade física regular e respeito pelos períodos de repouso (é durante o período de repouso nocturno que se verifica a regeneração das células da imunidade, responsáveis pela defesa contra os microrganismos).

10. É importante a qualidade do ar que se respira?

Não só é importante como fundamental. Como vimos, a maioria das infecções respiratórias transmite-se através do ar que respiramos. Ar de baixa qualidade pode causar no aparelho respiratório condições propiciadoras de infecções e ser um excelente veículo para a transmissão de microrganismos.

Nesta perspectiva é importante evitar ambientes mal ventilados, sobrepovoados e poluídos. Sempre que possível areje os locais onde reside ou trabalhe. A renovação do ar nesses locais é uma medida simples e muito eficaz.

Ambientes muito aquecidos com ar excessivamente seco, ambientes muito frios e muito húmidos, ou mudanças bruscas de temperatura constituem-se como agressores do aparelho respiratório podendo favorecer as infecções. Há pois, que os evitar.

Do mesmo modo condições climáticas mais agressivas e persistentes (frio, chuva, humidade e vento) podem originar inflamação no aparelho respiratório, facilitadora da implantação de vírus e bactérias. No Inverno, quando as condições meteorológicas são desfavoráveis, há que reforçar a prevenção!

11. A poluição atmosférica pode favorecer as infecções respiratórias?

Respiramos, em cada dia, 6 a 10 mil litros de ar que transportam partículas de poluição com capacidade para originar inflamação. A saúde do aparelho respiratório passa pela respiração de ar não poluído, quer no interior, que no exterior das habitações. O fumo do tabaco (activo ou passivo) e a poluição química (doméstica, automóvel e industrial), provocam uma intensa inflamação no aparelho respiratório, constituindo-se como uma porta aberta para a entrada de microrganismos causadores das infecções respiratórias.

12. Há que ter algumas precauções com os aparelhos de ar condicionado?

O ar condicionado pode ser um bom auxiliar ao amenizar condições ambientais extremas. Porém, está associado a dois problemas que podem ser indutores de doença.

O primeiro tem a ver com a sua má regulação, que pode originar que o ar fique demasiado seco, quente ou frio com nefastas consequências para o aparelho respiratório.

O segundo tem a ver com a sua manutenção e limpeza inadequadas. Quando não limpos os aparelhos de ar condicionado podem conter microrganismos nas suas condutas e filtros. Estes microrganismos (bactérias e fungos) ao espalharem-se pelo ambiente podem causar doença.

O exemplo mais paradigmático desta situação aconteceu em 1976, na cidade americana de Filadélfia, quando 221 dos participantes numa reunião de veteranos de guerra - a Legião Americana - adoeceram com uma forma grave de pneumonia, que acabou por causar a morte a 34 dos participantes. O agente causador desta nova doença, descobriu-se mais tarde, era uma nova bactéria; ela foi baptizada de Legionella e a doença passou a ser conhecida como a "doença do legionário" - uma homenagem ao evento e aos seus promotores. Estudos posteriores vieram mostrar que este novo microrganismo era transmitido através dos sistemas de climatização não devidamente cuidados. Trinta anos passados a Legionella continua a provocar pneumonias graves, sobretudo em pessoas debilitadas, idosas ou com doenças crónicas e, apesar de termos adquirido importantes conhecimentos sobre o seu tratamento, ela continua a ser uma importante causa de mortalidade.

13. O que fazer quando em contacto com uma pessoa infectada?

A maioria das infecções respiratórias, sobretudo as virais, transmite-se por via inalatória de pessoa a pessoa, sobretudo através da tosse e do espirro. Por isso, é importante evitar-se o contacto com uma pessoa que evidencie estar infectada. Caso tal não seja possível devem adoptar-se medidas de protecção respiratória que dificulte a transmissão interpessoal dos microrganismos. Dessas medidas a máscara é a que apresenta maior eficácia mas, na sua ausência a simples colocação da mão à frente do nariz e da boca pode impedir essa transmissão.

Caso a infecção esteja em si, proteja os outros tapando a boca e o nariz usando lenços de papéis descartáveis sempre que tussa ou espirre.

Lavar frequentemente as mãos é também uma medida muito eficaz já que outra forma de transmissão de muitas infecções respiratórias se realiza através das mãos por intermédio de gotículas que contêm os microrganismos.

14. Os medicamentos podem ajudar a reforçar as defesas do organismo?

Há um conjunto de fármacos integrados na família das vacinas - lisados polibacterianos - que ajudam a aumentar a resistência às infecções respiratórias. Estes medicamentos constituídos por lisados das principais bactérias responsáveis pelas infecções respiratórias têm a capacidade de estimular a actividade das principais células e imunoglobulinas que protegem o aparelho respiratório das infecções. Em Portugal, e segundo o SITE do INFARMED, estão comercializados, neste grupo, os seguintes medicamentos que se administram por via oral: Broncho-Vaxom®, Pulmomar OM®, Ribomunyl®, Lantigene B®, Provax® e Paspat®.

15. Como e quando se tomam estes medicamentos?

Habitualmente estes medicamentos são administrados por via oral. Apesar da sua administração coincidir habitualmente com o Outono e a Primavera há situações que aconselham a que ela se faça noutras épocas do ano. Como em quase todas as vacinas a sua administração faz-se em alternância com períodos de paragem.

16. Estes medicamentos costumam provocar efeitos adversos significativos?

A percentagem de efeitos adversos ronda os 3-4% e são, na sua maioria, ligeiros não obrigando à interrupção do tratamento. Desses efeitos, os mais frequentes são: distúrbios gastrintestinais (náuseas, vómitos diarreia e dor abdominal), reacções cutâneas e febrícula. Outras reacções como, febre elevada, reacções alérgicas (urticária e angioedema) e reacções respiratórias (tosse e crises de dificuldade respiratória) são pouco frequentes ou mesmo raras. Em caso de reacções gastrintestinais persistentes, reacções cutâneas e reacções respiratórias significativas e persistentes o tratamento deve ser interrompido.

17. Há pessoas a quem estes medicamentos estejam desaconselhados?

Sim. Em caso de ter havido uma reacção adversa significativa anterior, nos doentes com doenças auto-imunes, durante as infecções gastrintestinais agudas ou crianças com idade inferior a 12 meses estes medicamentos não devem ser administrados.

18. Estes medicamentos podem ser administrados nas grávidas e a mulheres a amamentar?

Não. Apesar de não ter demonstrado efeitos teratogénios ou fetotóxicos, por falta de estudos adequados estes medicamentos não devem ser administrados a grávidas. Como em crianças com idade inferior a 6 meses estes medicamentos não devem ser administrados em virtude da imaturidade do sistema imunitário da criança, não se deve administrá-los durante o aleitamento materno

19. Há alguma vacina protectora contra as pneumonias?

Em Portugal estão comercializadas duas vacinas contra os pneumococos, as principais bactérias responsáveis pelas pneumonias. Ambas injectáveis e ambas constituídas por fragmentos de vários tipos de pneumococos responsáveis pela maioria das infecções mais graves provocadas por esta bactéria:

    A chamada vacina antipneumocócica conjugada, pediátrica com indicação para ser utilizada em crianças com idade compreendida entre os 6 meses e os 5 anos confere protecção contra os sete diferentes tipos de pneumococos. Está comercializada no nosso país com o nome de Prevenar® e os pediatras administram-na aos 2, 4 e 6 meses, reforçando a vacinação aos 18-24 meses.
    Outra, a vacina antipneumocócica poliosídica, comercializada com o nome de Pneumo 23® confere protecção contra 23 tipos diferentes de pneumococo e está indicada para crianças com idade superior a dois anos e adultos. É sobre esta última que nos debruçaremos com mais pormenor.
20. Como funciona a vacina contra os pneumococos?

Esta vacina ensina as células responsáveis pela nossa imunidade a defenderem-se de muitos dos pneumococos com que contactamos e que têm capacidade de nos provocar doença.

Quando se toma a vacina, as células responsáveis pelas defesas naturais do nosso organismo reconhecem os elementos nela contidos como estranhos e passam a produzir anticorpos contra eles.

Quando de novo agredido pelo pneumococo o nosso organismo já está preparado para essas agressão, ou seja já tem capacidade de rapidamente produzir anticorpos capazes de inactivar essa bactéria e assim evitar que ela nos cause doença.

21. Quem deve ser vacinado com esta vacina?

Os principais grupos candidatos a esta vacinação são os seguintes:

    Pessoas saudáveis a partir dos 65 anos.
    Pessoas sofrendo de doenças crónicas: cardiovaculares, hepáticas, renais e diabetes.
    Pessoas sofrendo de doenças respiratórias crónicas: bronquite, DPOC, bronquiectasias e distrofias pulmonares.
    Pessoas com doenças que afectam a imunidade e diminuem a resistência às infecções: pessoas sem baço, doentes infectados pelo VIH, doentes transplantados ou a fazer quimioterapia, doentes com anemia hemolítica hereditária, e pessoas com doenças como o mieloma múltiplo ou linfomas.
    Pessoas que permanecem em locais com risco aumentado de infecções por pneumococos, como por exemplo, pessoas institucionalizadas em lares da terceira idade.
    Pessoas com doenças associadas a perda de líquido cerebroespinal.
22. Há pessoas que não podem apanhar esta vacina?

As pessoas que evidenciaram reacções prévias à vacina antipneumocócica não devem ser revacinadas. Igualmente não devem ser vacinadas as pessoas reconhecidamente alérgicas a determinadas substância nela contidas (por exemplo, o fenol) Também não se pode administrar a vacina durante os períodos febris, em situações de infecção activa ou nas agudizações de doenças crónicas (por exemplo, nos acessos de asma brônquica).

23. Pode-se administrar a vacina antipneumocócica a doentes que, reconhecidamente já sofreram infecções por pneumococos?

Uma infecção prévia por pneumococos não é uma contra-indicação para se administrar a vacina. O critério que prevalece é o da susceptibilidade do doente: no caso de pertencer aos grupos de risco acima mencionados o doente deve ser vacinado.

24. Como se administra a vacina antipneumocócica?

A vacina é geralmente administrada na parte superior do braço (região deltoideia), através de uma injecção de 0,5 ml administrada por via intramuscular (preferencial) ou subcutânea. As vias intradérmica e intravenosa estão proibidas visto estarem associadas a reacções graves. A eficácia protectora da vacina oscila entre os 60-80% nas pessoas vacinadas.

A vacina administra-se numa única dose, podendo haver lugar a uma revacinação cinco anos depois. A revacinação sistemática não é aconselhável.

25. Quais os efeitos indesejáveis associados à vacina antipneumocócica?

A vacina antipneumocócica é geralmente muito bem tolerada. O efeito adverso mais esperado é uma reacção inflamatória discretamente dolorosa no local de aplicação da vacina e que desaparece 24-48 horas depois. Como em qualquer outra vacina, e menos frequentemente, é possível verificar-se febrícula ou mesmo febre nas horas seguintes à administração. Raramente foram descritas outras reacções, como: mal-estar, cansaço, dores de cabeça, aparecimento de gânglios aumentados em locais próximos da injecção, dores nos músculos e nas articulações e, muito excepcionalmente, reacções alérgicas que podem ser graves.

Nas pessoas que são revacinadas num período inferior a três anos é habitual verificarem-se reacções locais muito exuberantes.

26. Pode-se apanhar infecção por pneumococos a partir da vacina?

Não. Como a vacina é constituída apenas por fragmentos das bactérias, ela não contém microrganismos viáveis capazes de provocar infecção.

27. As grávidas e as mulheres a amamentar podem ser vacinadas com a vacina antipneumocócica?

Por falta de estudos a vacina não deve ser administrada a mulheres no primeiro trimestre da gravidez. A prática clínica não demonstrou qualquer efeito nocivo sobre o feto e estudos realizados no último trimestre da gravidez também não evidenciaram toxicidade. A vacina pode ser administrada a mulheres que amamentem.

28. A vacina antipneumocócica pode ser administrada com outras vacinas?

Não há inconveniente na administração simultânea da vacina antipneumocócica com outras vacinas (com um particular realce para a vacina antigripal) desde que se administrem em locais diferentes.

29. A protecção conferida pela vacina surge quanto tempo após a sua administração?

A resistência aos pneumococos surge 2 a 3 semanas após a administração da vacina.

Caso pertença a um dos grupos de risco acima indicados, discuta com o seu médico as eventuais vantagens de poder ser vacinado contra as infecções por pneumococos, sobretudo a mais frequente e importante de todas elas - as pneumonias.

30. Há mais alguma infecção respiratória que pode ser prevenida com vacinas?

Sim. Usamos a vacina BCG para protecção contra a Tuberculose. Esta vacina integra o Programa Nacional de Vacinação e é administrada a todos os recém-nascidos à nascença ou no primeiro mês de vida. Para saber mais sobre esta vacina consulte o capítulo "Tuberculos" deste programa de Ensino.

Outra infecção respiratória que pode ser prevenida por uma vacina é a gripe. Como o vírus da gripe muda anualmente, para se obter protecção é necessária a vacinação anual. Esta vacina está indicada, sobretudo, para as pessoas mais frágeis nas quais a gripe pode adquirir um perfil de perigosidade - os chamados grupos de risco: indivíduos com mais de 65 anos; pessoas com doenças debilitantes, tais como diabetes, doenças crónicas do fígado, coração, ou rins; pessoas com patologia respiratória crónica como a asma, bronquite, bronquiectasias ou DPOC e, ainda, a generalidade das pessoas que apresentam compromisso da sua imunidade. Nos grupos a serem protegidos com a vacina da gripe incluem-se, ainda, as crianças dos 6 aos 36 meses e as grávidas no segundo e terceiro trimestre de gravidez, pessoas institucionalizadas e profissionais da Saúde

Para saber mais sobre a vacina da gripe consulte neste programa de Ensino o capítulo "Gripe"

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