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Médico, especialista em Pneumologia e Imunoalergologia Chefe de Serviço de Pneumologia Foi Director da Unidade de Cuidados Intensivos Respiratórios do Hospital Pulido Valente e Professor Associado Convidado da Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa É director clínico da Pneumomedical, Centro de Estudos da Função Respiratória, Departamento de Doenças Respiratória, Hospital Particular de Lisboa. Membro do ESWI, European Scientific Working Group on Influenza Consultor da Direcção Geral da Saúde para a Gripe Membro da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, Sociedade Portuguesa de Medicina Intensiva, European Respiratory Society, American Thoracic Society, European Academy of Intensive Care Medicine, European Academy of Allergology and Clinical Immunology e Fellow of the American College of Chest Physicians Não encontra resposta à sua questão? |
As perguntas mais frequentes 1. O que é a Gripe sazonal?
Normalmente chamada simplesmente Gripe, é uma doença infecciosa das vias aéreas causada pelo vírus da Influenza e que se transmite de forma eficaz de pessoa para pessoa. Os vírus que estão envolvidos podem ser de tipo A (com os subtipos H1N1 e H3 N2 ou de tipo B. Os surtos epidémicos de gripe sazonal surgem anualmente e, nos países de clima temperado, ocorrem habitualmente nos meses de inverno e podem aparecer desde o fim do Outono até ao início da primavera. Nestes países o período sazonal pode durar de 6 a 10 semanas, com uma média de 2 a 10% da população a ficar infectada e a desenvolverem doença. 2. O que é uma gripe pandémica?
Os vírus Influenza mudam constantemente e, de tempos a tempos, surgem novas estirpes. Se aparecer uma nova estirpe que seja muito diferente dos vírus anteriores e causar doença em humanos, as pessoas não têm imunidade, ou esta é muito pequena e, como consequência, o vírus pode espalhar-se rapidamente e tornar-se uma ameaça mundial. O vírus da Influenza vão modificando, constantemente, as características dos seus antigénios de superfície, de forma suficientemente importante que faz com que não sejam reconhecidos pelo sistema imunitário dos humanos e obrigue à fabricação anual de uma vacina preventiva. Um outro tipo de modificação - de maior impacto a nível da saúde das populações - é o que respeita à modificação do genoma - a estrutura central do vírus -. Esta modificação estrutural surge de forma abrupta, habitualmente nos vírus de tipo A, e pode acontecer quando um vírus aviário e um vírus A humano infectam simultaneamente um mamífero (porco ou homem) e os seus genomas se misturam como as cartas de um baralho. Daí resulta um novo vírus com o genoma recombinado. Se os antigénios de superfície (H e N) são de origem aviaria e não foram ainda "vistos" por humanos, vai resultar, consequentemente, uma nova epidemia entre a população com consequências devastadoras: uma pandemia. 3. Tem havido muitas pandemias causadas pelo vírus da Gripe?
Existem descrições deste tipo de doença na corte da Rainha Mary, no século XVI, referências a milhares de indivíduos doentes em cidades inglesas, no século XVII, e de uma epidemia, bem documentada, e que ocorreu em 1732 e que foi registada em Paris, em Fevereiro e em Nápoles, em Março, que se espalhou por toda a Europa, pela América através da Nova Inglaterra, seguindo rumo ao sul atingindo o México e o Peru. Em 1889 foi descrita a 1ª epidemia de influência asiática , que teve o seu início em Bukhara, na Rússia, e que se espalhou por todo o mundo com elevados índices de morbilidade e mortalidade. Por esta altura foi aceite a teoria do germe e todos os investigadores procuraram afanosamente o "bacilo" causador dessa epidemia. As pandemias mais tristemente conhecidas são: as de 1918-19 (a gripe espanhola ou a pneumónica) que causou a morte a cerca de 20 milhões de pessoas e que se espalhou não só continente europeu, mas também por África e pela América; a de 1957-58 (a gripe asiática), que foi responsável por um elevado grau de morbilidade; mais recentemente, em 1968-69, a gripe de Hong-Kong. Nos anos de 1977-78 e 1989-90, verificaram-se também pandemias mas de menor gravidade, embora responsáveis por um excesso de mortalidade nalguns países. 4. Como são os vírus da gripe?
Os vírus da gripe, que pertencem à família dos ortomixovírus, têm uma forma habitualmente esférica e possuem, na sua superfície, uma estrutura complexa constituída por cerca de 500 "espículas" que se projectam do invólucro de revestimento. Existem três tipos distintos de vírus influenza: A, B e C. O interior do vírus, o genoma, consiste em 8 (vírus A e B) ou 7 (vírus C) segmentos de ARN (ácido ribonucleico). No vírus de tipo A, que é o responsável pelas epidemias e pandemias existem, inseridas no invólucro, três tipos de formações com um papel importante na biologia do vírus:
O centro do vírus, chamado genoma, é constituído por 8 (nos vírus de tipo A e B) ou 7 (nos de tipo C) segmentos, unidos entre si com a nucleoproteína, formando a nucleocápside. 5. Qual a diferença entre uma gripe e uma constipação comum?
Fala-se muito mais em gripe do que, na realidade, se devia falar. Isto porque se atribui o epíteto de gripe a meras constipações. Embora compartilhem muitos sintomas a gripe não é o mesmo que uma constipação. São muitos, da ordem das centenas, os vírus capazes de provocar uma constipação: os rinovírus são os mais frequentemente implicados. Os sintomas das constipações tendem a ser mais suaves do que os da gripe e, por isso, com menos probabilidades de provocarem complicações graves.
6. Qual a diferença entre o diagnóstico clínico e o confirmado pelo laboratório?
Durante os surtos epidémicos, o médico pode diagnosticar um caso de gripe baseado nos sintomas típicos de febre, arrepios, dores de cabeça, tosse e dores no corpo. Para complementar este diagnóstico clínico e provar que, na realidade, a doença é causada pelo vírus Influenza, torna-se necessário recorrer ao laboratório. O isolamento do vírus e subsequente identificação e tipagem devem ser feitos em laboratórios de referência como o do Instituto Nacional de Saúde - Doutor Ricardo Jorge. Mais correntemente, os testes de diagnóstico molecular conseguem dar, com rapidez e precisão, um diagnóstico final de Influenza de tipo A ou tipo B. Os testes de diagnóstico rápido, que podem dar um diagnóstico em cerca de 30 minutos, detectam a Influenza mas, na maioria dos casos, não diferenciam entre dois tipos de vírus (A ou B). 7. Porque precisamos de nos vacinar todos os anos contra a gripe?
Os vírus da gripe, para se manterem e sobreviverem entre a população humana, têm de se modificar constantemente, caso contrário, ao serem reconhecidos pelo sistema imunitário humano seriam mais ou menos rapidamente, eliminados. É uma forma de inteligência, a que estes micro seres encontraram para conseguirem sobreviver. Assim, de uma forma constante, eles vão modificando as características dos seus antigénios de superfície, feitas de uma forma pouco marcada, mas suficientemente importante para que a estrutura antigénica não seja reconhecida pelo sistema imunitária dos humanos (é o "drift" ou deslizamento antigénico) - uma espécie de jogo do gato e do rato. Estas modificações que se processam à superfície são as que se dão constantemente e que obrigam a que, cada ano, haja necessidade de se criarem vacinas adaptadas a essas novas estirpes que são as responsáveis pelos surtos de gripe que surgem anualmente. Já as alterações do genoma, ao modificarem de forma mais radical a estrutura central do vírus, habitualmente por recombinação viral, são as responsáveis pelas grandes epidemias e pandemias que surgem duas a quatro vezes por século; esta modificação que surge no genoma é chamada de "shift" ou modificação antigénica. 8. Qual a diferença entre vacinas, antivirais e antibióticos?
As vacinas previnem ou mitigam as infecções. São produzidas com a finalidade de induzir uma resposta imune protectora no organismo contra os vírus representados na vacina. Quando é vacinado, o organismo reage através de uma resposta específica, constituída por células T e anticorpos específicos que lutam contra a infecção induzida por uma exposição a vírus que possa ocorrer mais tardiamente. Mas, mais importante ainda é o facto de a vacinação poder induzir uma memória imunológica específica contra os vírus representados na vacina. Assim, num contacto posterior com o vírus, o sistema imunológico é capaz de montar uma resposta específica muito mais rapidamente do que um sistema imunitário não estimulado. Os antivirais são drogas que podem tratar pessoas que já tenham sido infectadas por um vírus. Podem também ser usados para prevenir ou limitar infecções quando administrados antes ou imediatamente após a exposição, antes que a doença se manifeste. A diferença chave é que o medicamento antiviral só é eficaz apenas quando administrado dentro de uma certa janela de tempo antes ou após exposição e é eficaz apenas enquanto o medicamento está a ser administrado. Ou seja, o antiviral não deixa qualquer tipo de memória, ao contrário da vacina que, mesmo sendo administrada muito tempo antes de uma exposição ao vírus, mantém a protecção durante um longo período de tempo. Os antibióticos são medicamentos que interferem com a reprodução e crescimento das bactérias e, por isso, devem exclusivamente ser utilizados para tratar infecções bacterianas. As doenças virais, como a Influenza, não devem ser tratadas com antibióticos. E o que é mais grave, o uso inapropriado de antibióticos contribui para o desenvolvimento das resistências aos antibióticos, um problema de saúde muito preocupante. E porque é que os antibióticos são úteis durante a época gripal? Com efeito, as infecções causadas pelo vírus Influenza causam uma grande destruição celular a nível do aparelho respiratório com uma grande produção de restos celulares que necessitam de ser removidos e substituídos por novas células. É um processo muito activo, que se inicia imediatamente após a infecção inicial pelo vírus da Influenza. No entanto, esses restos celulares enquanto não são removidos servem de um excelente meio de cultura para bactérias pré-existentes ou bactérias que venham a infectar o doente já infectado pelo vírus da Influenza. As bactérias potenciais causadoras da pneumonia bacteriana secundária são os pneumococos, embora outras, muitas, possam ter também um papel importante. 9. Porquê se vacinar contra a gripe A?
Para não ficar doente nem ter que ir parar à cama. Mas também para não faltar ao trabalho, ou às aulas, seja na escola ou na faculdade. A gripe A, na maior parte dos casos é uma doença ligeira, mas pode também apresentar-se como uma doença mais exuberante em sintomas como a febre alta de aparecimento súbito, com mal estar geral, grande fadiga, tosse e dores musculares, mas também dores de cabeça, náuseas, vómitos... Esta forma clássica de gripe costuma pregar-nos à cama durante 5 ou 6 dias. 10. A vacinação protege dos riscos das complicações ligadas à gripe A?
Sim. As complicações ligadas à gripe A podem, por vezes, revelar-se muito graves, mesmo mortais. Cerca de um terço das formas graves em pessoas novas acabam nas Unidades de Cuidados Intensivos ou em Unidades de Reanimação. 11. Vacinar-se contra a gripe A é também proteger os outros, os próximos e os mais vulneráveis?
Ao ser vacinado contra a gripe A não só fica protegido, como também protege os outros, porque cria uma barreira que impede a propagação dos vírus. Contribui, deste modo, para protecção das pessoas com mais riscos: as grávidas, os lactentes, as pessoas com doenças crónicas... 12. A vacina contra a gripe A é perigosa?
A vacina contra a gripe A não é perigosa! A gripe A é que pode matar! A gripe A já matou alguns milhares de pessoas em todo o mundo. Em contrapartida, a vacina contra a gripe A é segura. Beneficiou dos mesmos procedimentos de fabrico que a vacina contra a gripe sazonal. Foi fabricada pelos mesmos fabricantes que produzem as vacinas contra a gripe anual e foi autorizada pelas mesmas autoridades sanitárias em todo o mundo. 13. Toda a população vai ter acesso à vacina?
Não. Só um décimo da população mundial é que vai dispor da vacina. O facto de em Portugal dispormos de cerca de 6 milhões de doses de vacina contra a gripe A torna-nos uns privilegiados. Quer dizer que quase 60% da nossa população pode ser vacinada. Negligenciar esta realidade e esta benesse é quase uma ofensa àqueles que nunca terão acesso a ela nem poderão proteger-se contra a gripe A. Não perca tempo em ir vacinar-se ou em pedir ao seu médico a prescrição da mesma, de acordo com o grupo de prioridade a que pertence. Precisa de duas semanas para adquirir a imunidade contra a Gripe A após ter sido vacinado... e quanto mais cedo for, melhor! 14. A vacina contra gripe não é fiável, foi elaborada à pressa pelos laboratórios.
É FALSO. A vacina contra a gripe A foi elaborada com os mesmos procedimentos e os mesmos ensaios clínicos que a vacina sazonal. Os protocolos são actualmente bem validados e assegurados. Os laboratórios que procederam à produção da vacina contra a gripe A são reconhecidos pela sua grande experiência em fabricação de vacinas. Por fim, a nova vacina foi avaliada pelas autoridades sanitárias da mesma forma que o foi a vacina da gripe sazonal. Pelo que são ambas seguras. 15. A vacina contra a gripe A contém adjuvantes perigosos.
É FALSO. Tem-se levantado uma grande polémica à volta dos adjuvantes, substâncias utilizadas para potencializar a resposta imunitária e, assim, reduzir a dose de antigénio da vacina. Já são utilizados há bastante tempo. Sem adjuvantes não seria possível preparar, de forma tão rápida, o número de vacinas contra a pandemia provocada pelo vírus causador da gripe A. Segundo os especialistas em vacinas "a utilização de um adjuvante pode favorecer uma eficácia imunitária maior em casos de mutação dos vírus". As vacinas com adjuvantes, actualmente disponíveis para combater a gripe A contêm esqualenos. O mesmo adjuvante que existe nalgumas vacinas contra a gripe sazonal, assim como a vacina contra o cancro do colo do útero, sem nenhum problema reportado. Quanto ao Timerosal, um conservador à base de mercúrio, foi acusado de estar na origem de déficites neurológicos e de autismo. Na ausência de prova, continua a ser utilizado para a produção de vacinas multi-doses (um frasco único que pode conter várias doses de vacina). Chama-se a atenção para o facto de que a dose a injectar ser mínima, bem inferior à quantidade de mercúrio existente num peixe contaminado por esse metal... As vacinas mono-dose não contêm conservantes mercuriais. 16. A vacina contra a gripe A aumenta o risco de desenvolver um quadro neurológico designado por Síndroma de Guillain Barré.
É FALSO. É natural que, quando se faz uma vacinação em massa, surjam numerosas complicações que vão ser atribuídas ao acto vacinal. De momento, uma das acusações feitas contra a vacina H1N1 é de que provoca Síndroma de Guillain Barré. Esta situação tem sido avaliada em todos os países e, por exemplo, em França, 6 semanas após 1 milhão de pessoas ter sido vacinada, o número de casos de Síndroma de Guillain Barré, de esclerose em placas, de episódios de convulsões ou de abortos espontâneos, não foi superior ao dos não vacinados. Quer dizer que estas situações clínicas podem aparecer mesmo sem estar vacinado contra a gripe A. No caso da Síndroma de Guillain Barré, o risco de se desenvolver esta doença após a vacinação é bem mais fraco do que após se ter tido a gripe. 17. A vacina contra a gripe A pode causar numerosos efeitos secundários perigosos
É FALSO. À excepção de uma vermelhidão e de um ligeiro edema doloroso no local da inoculação, as dores de cabeça, a febre, dores no corpo, náuseas e vómitos, quando surgem, desaparecem ao fim de 48 horas. São sintomas benignos que também aparecem quando se apanha gripe. Os outros rumores são infundados. Chama-se a atenção para o facto de que o risco de efeitos secundários da vacina ser bem inferior ao de sofrer os sintomas de uma gripe grave. 18. A gripe A não é uma doença grave, é uma gripezita simples, sem gravidade de maior.
É FALSO. A gripe A tem avançado de forma rápida. Já provocou, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), pelo menos, 12799 mortes em todo o mundo, desde que surgiu no México em Março/Abril de 2009. Em Portugal, até 10 de Janeiro de 2010, o número de mortes registadas era de 83. Na Europa, a 3 de Janeiro de 2010, estavam registadas 2554 mortes. No continente americano, e até à mesma data, estavam confirmados 6880 casos mortais. Estes números mostram que a gripe A pode ser benigna mas, por vezes, ser muito perigosa, principalmente para os grupos etários mais jovens, ao contrário da gripe sazonal responsável por numerosas complicações graves, mas nas pessoas mais idosas. | ||||||||||||||||||||||||||||||
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